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Luminosidade e sombras num longo poema enredado na areia do tempo

Flávio Carneiro

Poética da simplicidade

Roseana Murray é nome mais que conhecido quando se fala em literatura para crianças e jovens. Com mais de 40 livros publicados, recebeu os mais prestigiados prêmios , faz parte da Lista de Honra do International Board of Books for Young People, e tem vários de seus poemas traduzidos mundo afora.

O que talvez poucos saibam é que ela publicou, nos anos 80 e 90, quatro primorosos livros de poemas, digamos, para adultos, agora selecionados por Hebe Coimbra na antologia Poesia Essencial.

Poeta evita os rebuscamentos

Como acontece com os bons autores, há pouca diferença entre suas produções para o público infantil e juvenil e para o leitor adulto. Se, na primeira, Roseana não incorre no erro comum de imbecilizar sua obra com vistas a atingir leitores teoricamente mais despreparados para o trato com a palavra, na segunda a poeta evita qualquer rebuscamento que, por excessivo, comprometa o entendimento, de modo que cada poema resulta legível mesmo para o leitor iniciante.

Num e noutro caso, há uma preocupação com a busca da palavra simples, num exercícioo que esconde, por trás do objeto pronto, todo um complexo jogo de experimentações de linguagem, fruto de leituras e vivências diversas. Para o crítico, fica lançado o desafio, sem dúvida prazeroso, de buscar os fios que fazem vir à  luz o espetáculo pouco a pouco. Para o leitor não especializado mas sempre em busca de boa poesia, vale o espetáculo em si.

Ao contrário do que ocorre com a maior parte desse tipo de antologias, Poesia Essencial não vem dividido em partes, correspondentes a cada fase da obra do autor, de modo geral bem diferentes entre si. Aqui, tudo parece ter sido escrito não ao longo de 20 anos, em quatro livros, mas numa mesma época ou, melhor dizendo, numa época atemporal, ainda que a expressão possa parecer, de início, um paradoxo.

Nada, nos poemas reunidos, traz a marca de um tempo específico,  a não ser que se trata de uma poesia produzida no século XX ou, mais precisamente, em algum momento posterior a Bandeira e Drummond, cuja poética da simplicidade se faz ouvir, como um eco distante, nas páginas do livro .

Talvez venha daí também o efeito de encantamento que o livro provoca, retirando sua leveza do modo como consegue flutuar por sobre modismos, gerações e grupos de qualquer espécie. É o que sugerem, por exemplo, os versos finais de Momento: "hoje se eu gritasse / um anjo me ouviria / e poderia entender as minhas asas" ou, de modo mais incisivo, em Tarde: "hoje não toco o chão/ apenas flutuo / nessa tarde azul / para não deixar pegadas".

Borges dizia que estava sempre a escrever o mesmo livro. É essa a impressão que se tem depois da leitura de Poesia essencial, a de que Roseana passou a vida inteira escrevendo um único poema. Poema no qual algumas palavras " barco, vento, estrela, casa " se combinam e recombinam com outras, criando a ilusão de poemas diversos que nada mais são do que estrofes disseminadas páginas afora a partir de uma mesma explosão original.

Conjunto sinuoso e compacto de imagens

Como na concha de um caracol  estampada na capa e atravessando o livro de ponta a ponta, no belo projeto gráfico de Silvia Negreiros , os poemas parecem habitar espaços  vizinhos sem perder cada qual seu próprio  espaço num conjunto ao mesmo tempo sinuoso e compacto. Cada um deles se assemelha a uma linha, a uma curva nesse livro em forma de concha. Livro que não apaga mas antes abriga a diferença " um poema nasce / se espraia vertiginosamente / como areia / em direção nenhuma / em sua frágill arquitetura / o caos se arruma."

O caos, embora rearrumado na forma final do poema, não chega a se desfazer de todo, permanecendo vivo não apenas nos momentos em que se espera encontrá-lo :  na solidão,  na saudade ou no rompimento amoroso , como também no meio mesmo do cotidiano, brotando da "fabricação  contínua de sonhos e cheiros " a que estamos sujeitos. Não se espere do livro, portanto, apenas o apaziguamento. Sob a forma delicada pulsa o inesperado, trazendo a tona o rumor dos mortos, os abismos, as armadilhas.

Essenciais são essas pequenas sombras que fazem par com a luminosidade do longo poema que Roseana Murray vem compondo ao longo dos últimos  20 anos, num trabalho quase artesanal de enredar o tempo, com paciência, precisão e leveza. 


O Globo, 22/02/2003
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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