Prefácio para o livro Poesia Essencial
Hebe Coimbra
A força da partícula e o não tempo de Roseana Murray
Prazenteira sim, mas também muito difícil a tarefa de organizar esta antologia poética. Desde a primeira leitura dos livros de Roseana Murray que nela seriam reunidos, Paredes vazadas (Memórias Futuras, 1988), Pássaros do absurdo (Editora Tchê, 1990), Caravana (inédito, 1994), e As cidades e a casa (inédito, 1998), ficou claro que o ideal não seria a clássica divisão por obras, ordenadas cronologicamente, que apresenta a trajetória de um poeta revelando os seus possíveis vínculos com movimentos ou grupos literários, as rupturas, as influências, enfim, as diversas fases por que passa seu trabalho e as marcas desse ou daquele tempo em seu verbo.
Uma antologia poética deve reificar o mundo do poeta e seu universo manifesto em poesia. Mas, como fazer isto amparada na esteira cronológica se, para Roseana, “a vida começa hoje / sempre por um fio / a alma é um pêndulo / leva as horas de encontro às pedras”, se do tempo sua poesia não deixa sinais? De sinais, o mais abrangente, o da liberdade. Melhor, o da leveza da liberdade.
Foi então essa atmosfera de leveza, encontrada em cada um dos quatro livros, que guiou a seleção desta antologia. Uma leveza nem de longe relacionada com superficialidade. Os temas densos, a solidão, a morte, a angústia, as perdas, vêm sustentados por uma trama de sofisticados jogos de linguagem que se faz transparente para revelar apenas aquilo que é simples, delicado.
Uma simplicidade que vem das palavras. Mas não se engane o leitor. Simplicidade aqui não se relaciona com fácil, e sim com uma extraordinária riqueza de sensações que as palavras provocam: sino, pássaro, estrela, nuvens, vento, silêncio, miragens, pedras, janelas, precipícios, ossos... Palavras “com seus dentes / seu mel e veneno”. Palavras do nosso dia-a-dia que se repetem em versos livres, mas que, em suas diversas combinações, se turvam e se abrem para muitos significados.
Durante a seleção e organização dos poemas, ficou evidente a alquimia da poeta, seu talento para perceber a poesia da partícula, para tecer um universo íntimo e universal costurando palavras e silêncios com a destreza de um físico que brinca com a matéria e a antimatéria. Roseana faz poesia como quem dança com as ínfimas e superpotentes correlações da mais minúscula poeira, do mais curto dos silêncios, com um todo que ultrapassa a barreira do tempo-espaço. E o leitor, amparado em sua pena, deixa-se levar pelo encanto e aconchego do buraco negro. Daí a dificuldade de lidar com a poesia de Roseana: cada poema tirado ou acrescentado no conjunto da antologia, assim como cada alteração em sua sequência, produzia um resultado tão forte quanto o da fissura de um átomo.
Assim, para manter a atmosfera de leveza, o essencial na obra da autora, organizei este livro com o cuidado de quem se sabe armando uma explosão estética, uma bomba sinestésica pronta a ser deflagrada pelo ínfimo peso do olhar do leitor sobre as páginas de um livro. A ideia não era apontar esse ou aquele tempo da vida da autora, muito menos seus vínculos com esse ou aquele lugar, com essa ou aquela obra. A ideia era fazer brotar no leitor a comunhão com a poeta.
Se esta antologia alcançar seu objetivo, ela servirá como uma breve apresentação ao mundo de Roseana Murray e à sua obra ainda em construção. E que venham muitos novos livros seus para abrigar os leitores desta travessia poética. Pois quem lê seus versos com um olho na partícula e outro no todo, com um ouvido no verbo e outro no silêncio, deixando-se engolir pelo buraco negro da arte para alcançar um novo e fascinante universo, de vez em quando vai sentir vontade de voltar para lá. De voltar a visitar uma poeta brasileira chamada Roseana Murray.
BIOGRAFIA:
Roseana Murray nasceu em 1950, no Rio de Janeiro, numa casa de imigrantes judeus poloneses e, vivendo cercada de sobreviventes do antissemitismo na Europa, guarda na lembrança uma infância triste. Tímida e com um sentimento forte de deslocamento, procurou refúgio nos livros. Na casa da sua avó havia o “Tesouro da Juventude” e sua melhor amiga tinha a coleção do “Sítio do pica-pau amarelo”, que foram suas primeiras leituras. Além disso, um tio, irmão de seu pai, lhe trazia livros. Era apaixonada por uma história que se passava na pré-história e morava em um livro que seu irmão lhe deu de presente. Lia muito e frequentava umas aulas de declamação no Clube Monte Sinai. Adorava declamar.
No que seria hoje o sexto ano do ensino fundamental teve uma professora maravilhosa que deu a ela de presente o poeta Vinicius de Morais. Apaixonou-se. Mas seguiu lendo mais prosa do que poesia. Embora não lembre o que entendia, lia Sartre, e, aos 14 anos, já havia lido toda a obra de Kafka. No segundo grau, entrou na Aliança Francesa e, desde o segundo ano, lia tudo o que era possível com um dicionário de francês nas mãos. Depois, na própria Aliança, estudou literatura e aí começou seu contato com a poesia, principalmente com os poetas franceses. Um deles foi um tsunami em sua vida. Apesar de ser considerado um poeta menor, Jules Supervielle, com seu livro “Gravitations”, tirava tudo do chão, e com isso Roseana se identificou completamente. Quando saiu o “Poema Sujo”, de Ferrreira Gullar, ficou maravilhada, enlouquecida. Andava pela casa lendo o poema em voz alta, ouvindo Keith Jarret. E foi então que imaginou que, juntando o Gullar e o Supervielle, poderia tentar escrever poesia. Começou a ler poesia, tudo o que podia. Lia muita, muita poesia. A sua escola foram os poetas. Não cursou universidade, pois, como diz, nessa época, “vagava entre escombros, minha vida emocional era muito caótica mesmo”. Casou muito cedo, teve o primeiro filho com 18 anos e não se sentia preparada para nada. Teve outro filho, separou-se, foi morar nas montanhas de Visconde de Mauá, voltou ao Rio de Janeiro, continuou lendo muito e começou a escrever cada vez mais.
Trabalhava como tradutora, quando, em 1980, publicou seu primeiro livro de poesias para crianças, “Fardo de carinho” (Editora Murinho). Em 1984, fez uma oficina literária com Antonio Carlos Sechin que a ajudou bastante e lhe deu ânimo para continuar sempre. De lá para cá, venceu concursos nacionais de poesia e recebeu vários prêmios importantes conferidos, entre outros, pela Academia Brasileira de Letras, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, e pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA. Em 1994, seu livro “Tantos medos e outras coragens”, entrou para a Lista de Honra do International Board on Books for Young People – IBBY.
Em 2010, com mais de 70 livros publicados, alguns traduzidos no México (“Casas” e “Três velhinhas tão velhinhas”), com poemas publicados em antologias na Espanha e dois poemas traduzidos em seis línguas (“Um Deus para 2000”, Juan Arias, Editora Desclée, e “Maria, esta grande desconhecida”, Juan Arias, Editora Maeva), a obra de Roseana é considerada uma das mais importantes da literatura nacional. Nove de seus poemas do inédito “As cidades e a casa” abriram o volume dedicado à arquitetura na revista de filosofia e pensamento espanhola “Microfisuras”.
Participou, ao longo de três décadas, de vários projetos de leitura em todo o Brasil. Em 2003, criou e implantou em Saquarema, junto à Secretaria Municipal de Educação, o “Projeto Saquarema: uma onda de leitura”, que vem formando dezenas de leitores.
Em maio de 2010, Roseana nos conta que segue lendo poesia sem parar e acaba de descobrir a poeta uruguaia Idea Vilariño. Segreda também que hoje escreve bem menos do que antes e que, às vezes, acha que já falou demais. Mas adora o desafio de trabalhar com um tema e vira e mexe cede ao ímpeto de escrever. Para isto, aliás, tem lá seus rituais: precisa de sua mesa, de seu computador e gosta de escrever de manhã cedo. Às vezes, um verso lhe vem inteiro ou mesmo um poema. Anota-o, esteja onde estiver. Um último detalhe: Roseana não gosta de grandes cidades. Precisa de recolhimento e silêncio para escrever. Mora em frente ao mar, em uma casa que construiu como um poema e para onde se mudou há vários anos com o marido e também escritor Juan Arias, suas gatas e seus livros.
Páginas na internet sobre Roseana Murray:
www.roseanamurray.com
www.blogdaroseana.blogspot.com
Obras da autora:
Poesia
- Variações sobre Silêncio e Cordas, com desenhos de Elvira Vigna. E-BOOK, edição artesanal Maurício Rosa, Visconde de Mauá, 2008.
- Poesia essencial, Editora Manati, 2002.
- 15 poemas no livro Um Deus para Dois Mil, de Juan Arias, Editora Vozes (em seis línguas) 1999.
- Caravana, inédito, vencedor do Concurso Cidade de Belo Horizonte, 1994.
- Pássaros do absurdo, Editora Tchê, 1990 (Vencedor do Concurso da Associação Gaúcha de Escritores).
- Paredes vazadas, Editora Memórias Futuras, 1988.
- Viagens, Editora memórias Futuras, 1984.
- Porta a porta, com Suzana Vargas, Editora Saraiva, 1998 (Acervo Básico FNLIJ - categoria jovem).
Livros para crianças
- Fardo de carinho, Editora Lê, 2009.
- Poemas de céu, Editora Paulinas, 2009.
- Kira, Editora Lê, 2009.
- Arabescos no vento, Editora Prumo, 2009.
- Fábrica de poesia, Editora Scipionne, 2008.
- Poemas e comidinhas, (com a colaboração do chef André Murray), Editora Paulus, 2008.
- Residência no ar, Editora Paulus, 2007.
- No cais do primeiro amor, Editora Larousse, 2007.
- Desertos, Editora Objetiva, 2006 (Finalista do Prêmio Jabuti e Menção Altamente Recomendável FNLIJ, 2006)
- O traço e a traça, Editora Scpionne, 2006.
- O xale azul da sereia, Editora Larrousse, 2006.
- O que cabe no bolso?, Editora DCL, 2006.
- Paisagens, Editora Lê, 2006.
- Pêra, uva ou maçã, Editora Scipione, 2005 (Acervo Básico, FNLIJ).
- Rios da alegria, Editora Moderna, 2005 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ).
- Poemas de céu, Editora Miguilim, 2005 (nova edição de "Lições de astronomia").
- Maria Fumaça cheia de graça, Editora Larousse, 2005.
- Duas amigas, Editora Paulus, 2005 (reedição).
- Lua cheia amarela, Editora Dimensão, 2004.
- Caixinha de música, Editora Manati, 2004.
- Um gato marinheiro, Editora DCL, 2004.
- Todas as cores dentro do branco, Editora Nova Fronteira, 2004.
- Recados do corpo e da alma, Editora FTD, 2003 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ).
- Luna, Merlin e outros habitantes, Editora Miguilim/ Ibeppe, 2002 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ).
- Jardins, Editora Manati, 2001 (Prêmio da Academia Brasileira de Letras de Literatura Infantil, 2002).
- Caminhos da magia, Editora DCL, 2001.
- Manual da delicadeza, Editora FTD, 2001.
- O silêncio dos descobrimentos, com Elvira Vigna, Editora Paulus, 2000.
- Receitas de Olhar, Editora FTD, 1997 (Prêmio O Melhor Livro de Poesia, FNLIJ).
- Carona no jipe, Editora Memórias Futuras, 1994 e Editora Salamandra, 2006.
- No final do arco-íris, Editora José Olímpio, 1994.
- O mar e os sonhos, Editora Miguilim, 1996 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ).
- Paisagens, Editora Lê, 1996.
- Felicidade, Editora FTD, 1995 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ).
- De que riem os palhaços, Editora Memórias Futuras, 1995.
- Tantos medos e outras coragens, Editora FTD, 1994 (Prêmio O Melhor Livro de Poesia, FNLIJ e Lista de Honra do IBBY), nova edição em 2007.
- Qual a palavra? Editora Nova Fronteira, 1994.
- Casas, Editora Formato, 1994 (editado no México, Editora Alfaguara).
- Dia e noite, Editora Memórias Futuras, 1994.
- Artes e ofícios, Editora FTD, 1990 (Prêmio APCA e Menção Altamente Recomendável, FNLIJ), nova edição em 2007.
- Falando de Pássaros e Gatos, editora Paulus, 1987
- Fruta no ponto, Editora FTD, 1986. (Prêmio O Melhor de Poesia. FNLIJ
- Fardo de carinho, Editora Murinho, 1980 e Editora Lê, 1985.
- O circo, Editora Miguilim/ Ibeppe, 1985.
- Lições de astronomia, Editora Memórias Futuras, 1985.
- Classificados poéticos, Editora Miguilim/ Ibeppe, 1984. (Menção Altamente Recomendável para a Criança FNLIJ, e finalista do Prêmio Bienal)
- No Mundo da Lua, Editora Miguilim/ Ibeppe, 1983.
Contos para crianças e jovens
- Território de sonhos, Editora Rocco, 2006 (Menção Altamente Recomendável FNLIJ, 2006).
- Sete sonhos e um amigo, Editora FTD, 2004.
- Pequenos contos de leves assombros, Editora Quinteto, 2003.
- Um avô e seu neto, Editora Moderna, 2000.
- Terremoto furacão, Editora Paulus, 2000.
- Um cachorro para Maya, Editora Salamandra, 2000.
- Uma história de fadas e elfos, Editora Miguilim / Ibeppe, 1998 (Acervo Básico, FNLIJ).
- Três velhinhas tão velhinhas, Editora Miguilim / Ibeppe, 1996.
- O Fio da Meada, Editora Memórias Futuras, 1994. Editora Paulus, 2002.
- Retratos, Editora Miguilim/ Ibeppe, 1990 (Menção Altamente Recomendável, FNLIJ)
- O buraco no céu, Editora Memórias Futuras, 1989.
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