Dados permanecem transitórios sobre quem quer que seja. Uma manhã traz o galo.
Aparecem filiação por parte de mãe, sucessivamente por parte de avó; de uma árvore que habita e fala do oco, de dentro; e o pé singular, firmemente imóvel (há séculos) está enfiado, as raízes pela terra e seus apodrecimentos.
Noites subterrâneas, a seiva percorre, fabrica sementes, enquanto as mãos sobem aos galhos balançando a contra-dança dos pensamentos ao redor dos ventos.
Por essa música nos ossos, alça voo, e quando alçança, luz. Como nas asas do cavalo Pegasus ou no sobrevoo da águia - entra por seu olho enquanto mergulha.
Cintilações. Estrelas e mais que estrelas, âncoras interligadas. Rios, e para contorno dos mares, penhascos, fronteira, buracos negros, passagem, barco à vela e canoa – caminho, só quando há lua. Pelos quatro cantos acordados, estão as encruzilhadas, ao mesmo tempo desejo de pântano e de ar.
Um encontro. Há um anjo e o que sussurra. Aconselha a não temer os sonhos.(No tempo, estão as caixas quebradas com tudo que havia dentro.)
Nos porões desta carteira de identidade, por exemplo, há uma moringa quebrada que não guarda a água recolhida na pele da taioba. Mas sob o chão úmido, ouve: um barulho de nascente perpassa a ponte. Quem presta atenção aos gestos mais cotidianos, vê: o seu fio de água, os peixes dourados, a alegria, porém, cuidado - tábuas escorregadias.
Maria Clara de Motta Maia
Mestra em Memória Social e Documento (UNIRIO) e Pós-graduanda em Literatura infantil e juvenil (UFRJ).
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
Foto do cabeçalho: Bruno Veiga (Divulgação Ed. Objetiva)