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A menina que não era Lia e Lia

Ao Latuf, pelo incentivo a pensar devagar, escrevendo, algo
sobre a literatura de uma amiga que tanto amamos.

 “O melhor espelho é um amigo antigo.”
George Herbert

 

 

O conto Lia de Roseana Murray, – um dos cinco que compõem o livro da autora Pequenos contos de leves assombros (Quinteto Armorial, 2003), trata de uma forte amizade construída entre duas meninas, que voltam a se ver depois de adultas e de algum tempo afastadas.

Os diferentes tempos e os espaços percorridos pelas duas amigas, em conjunto e separadamente, são-nos apresentados exclusivamente pelo olhar liríco-descritivo  de uma delas - a amiga narradora (que se nos apresenta  como um eu-lírico e sem nome),  sobre Lia, menina  poucos anos mais velha.


 

Os tempos



Ao longo do pequeno conto de cinco páginas, vamos conhecendo as personagens pela narração de suas repetidas ações cotidianas durante a infância, suas relações familiares, as diferentes ocupações de seu tempo livre, seus olhares, seu apoio mútuo, seus silêncios, as numerosas diferenças para com seu relaciomento familiar e bem poucas semelhanças de meninas adolescentes que crescem, por livre escolha, juntas.  
O seu relacionamento é diário. Todos os dias, durante anos, a narradora, quando menina até o início de sua puberdade, ia para a casa de Lia passar a tarde inteira – fazia deveres, brincava, lia os  livros do Sítio do Picapau Amarelo de Lia, via chegar os carinhosos pais da amiga que invariavelmente espantados de ela ainda estar ali,  mandavam-na polidamente para casa.
A narrativa transcorre sem que nenhum diálogo verbal, nenhuma conversa, para além de seus olhares, pareça ter tido maior importância ou tensão digna de nota.
Mesmo no relato do período em que ambas terminaram o ensino fundamental e Lia mudou para outro bairro e foi natural e paulatinamente se afastando – diálogo algum é transcrito.
Esta forma de narrar, sublinhando o silêncio de uma relação profundamente íntima, livre e terna entre as meninas, realça enormemente a força e o impacto do que será dito  quando do reencontro das duas já adultas.
A fala única e capital, transcrita como momento síntese de todo diálogo sutilmente estabelecido entre as duas amigas a vida toda, parece concentrar a razão para a história de Lia figurar nesse conjunto de contosconstituído de pequenos sustos e leves assombros:

 

 

“Sabe, estive presa. Eu precisava te ver. Você é a única
coisa que não conseguiram quebrar.” Ela me olhou firme,
com olhos secos, e mais uma vez eu soube que ela viveu
por mim o que eu não pude viver. (p.42)

 

 

Depois de acompanhar em quatro das cinco páginas a narrativa de uma cálida amizade construída entre duas meninas-moças quase viviam experiências quase opostas - uma solitária e tímida, outra extrovertida; uma cuidadora, outra que se deixava cuidar, uma esportiva, outra avessa a movimentações com o corpo, mas de imaginação  cotidianamente ativa – é todo um mundo conhecido e  pesadamente adulto que nos vem à memória:  o da ditadura brasileira, estabelecida a partir de 64, o regime que durante anos torturou e “quebrou” pessoas que não o aceitavam.
Olhamos firmemente para a frase de Lia, que  de olhos vazios e secos volta para ver novamente sua amiga de infância, e um elo, algum parentesco, alguma notícia de jornal, a lembrança de algum amigo perdido se restabelece:
 “Amigos presos, amigos sumindo assim: pra nunca mais”, Esta a nossa dura realidade, como bem traduziria Gilberto Gil  adaptando a letra de canção original de Bob Marley No woman no cry,  em fins da década de 70.
Para um boa entendimento da metáfora dos olhos esvaziados e secos de Lia na parte final da história,  reflexo destacado do período que os sombreou, precisamos voltar ao  tempo e lugares da infância/mocidade das duas amigas da história.
Ao longo do pequeno conto sucedem-se espaços de diversas ordens - físicos, metafísicos e imaginários - onde se encontram e reencontram  as duas meninas. Acompanhemos a abertura de suas entradas e a saída de suas portas.

 

 

As metáforas do olhar e os espaços íntimos onde ficam

 

 

A amizade de infância entre Lia e sua amiga – personagem-narradora sem nome, é definida inicialmente como um meio no qual se entra e fica-se confortavelmente a bordo, como “dentro de uma árvore frondosa, onde se podia respirar.” (1)
Este o primeiro de muitos espaços relativos a uma intimidade profunda e marcante que vai-se estabelecendo e sendo narrada minuciosamente, passo a passo.
Os olhos de Lia, inicialmente, constituem o primeiro sinal de acolhimento sentido  pela menina mais nova na que iria se tornar sua amiga. Em seguida, diante da indagação de Lia sobre seu nome, sentiu-se acolhida como em um ninho “ verdadeiramente uma casa” (p. 36)
A  casa paterna da menina que não é Lia (cujo nome até o fim não saberemos) é descrita como um local de estranheza: um silêncio reinava “constante e incômodo, como se nenhum habitante pudesse olhar nos olhos um do outro.” (p. 36) Quando a menina encontrava na rua com um de seus irmãos era como se nenhum deles a reconhecesse.  Essa opacidade nas relações familiares é retomada diversas  vezes no conto, e sempre contraposta ao bom ambiente que sentia na casa de Lia ,  na relação de  Lia  com  seus carinhosos pais.
A menina que não é Lia morava numa casa de sobrado: “Posso vê-la hoje, intacta como dentro de um espelho, guardada.” (p. 36) Note-se que a construção da frase não enxerga a casa desde o passado, mas desde hoje – “posso vê-la hoje”, como se apenas hoje, remontando à sua história, a pudesse figurar: como um espelho guardado em que ninguém se olhava.
A menina que não é Lia, que tem silêncios em casa e em seu jeito de ser,  define toda sua personalidade em oposição a amiga mais velha –, a outra é toda extrovertida, esportiva, ela é toda introvertida, anti-esportiva, e assídua leitora.
“Tudo que eu não podia fazer, ela fazia por mim. Eu vivia uma vida paralela, dentro dos livros, ela vivia a outra, a vida paralela que corria do lado de fora.” (p. 39)
O espelhamento metafísico, a busca do reconhecimento de uma identidade em relação a Lia não revela nenhuma opacidade, é perfeitamente nítido. Embora oposto e complementar, é apresentado sem tensões:
“Se ela me completava com sua energia e arrebatamento, eu também a completava com minha maneira de ser tão diferente da dela, meu silêncio, minhas reticências.” (p.40)

 

 

O intimidade estabelecida das meninas é vivida entre três casas ao longo da narrativa e inclui alguns espaços particulares dentro destas.
outros espaços, os externos, como a escola em que ambas estudam rapidamente classificada como  labiríntica , que Lia ajudava a menina menor a percorrer e os porões da prisão durante a ditadura -  mas estes, embora importantes,  são apenas  aludidos ou mencionados de passagem.
É para o interior das casas, para sua interioridade que a narradora-personagem se volta.
O lar de Lia, freqüentado todos os dias pela narradora, “durante anos e anos”, pelo menos durante a semana corrida, quase não era perturbado pela presença de adultos – os pais de Lia trabalhavam fora e não havia empregada.
Ao chegarem em casa, os pais de Lia “davam beijo, faziam festa” e sempre se espantavam de a menina vizinha ainda estar ali e mandando-a embora porque já estava escurecendo.
A menina visitante tecia comparações entre a família de Lia e a sua em termos muito desconcertados. O ambiente em sua casa era péssimo: “Pairava em casa um silêncio incômodo, como se nenhum habitante pudesse olhar nos olhos do outro.” A menina almoçava só e sentimentalmente jantava também, pois os jantares em sua casa eram “silenciosos e rarefeitos”. (p. 39)
O quarteirão que separava sua casa da casa de Lia era sentido como “um oceano”. Uma vez transposto, levava a menina como que a um “outro continente”.  Fazia deveres, brincavam juntas e durante uma boa parte do dia, a menina que não era Lia abria o armário da amiga, tirava  um volume do Sítio do Picapau amarelo de Monteiro Lobato e arrebatadamente o lia.: “Foi a revelação para mim...que a felicidade podia existir.” (2) (p.39)
 Nunca os levava para sua casa, eles eram um lugar que frequentava, que ficava a salvo de qualquer desencantamento, na casa de Lia:

 

 

“O sítio se misturava com a casa de Lia, ela se misturava com os personagens do Sítio, e, claro, eu também; quando voltava, eu tinha certeza de que tudo era provisório, minha casa verdadeira estava me esperando no dia seguinte, dentro de um armário de livros. Quando chegava ao último livro, voltava ao primeiro”. (p. 39)

 

 

Os livros da coleção de Monteiro Lobato eram compreendidos como “casa verdadeira, dentro do armário da casa de Lia” lugar de felicidade para onde a menina que não era Lia, levava sua amiga e a si mesmo para misturarem-se nas aventuras do Sítio de D. Benta. Esta casa, criada pelo e no espaço onírico da leitura, é o espaço de liberdade, onde cabe tudo que se deseja: puxava um volume, como um tijolo e abria-se um outro recinto na casa de Lia, onde cabiam as duas dentro do mítico Sítio.
Para a menina que não era Lia, a vida que comportava o Sítio - vivido como uma mandala, - até o espaço ulterior, de reencontro com a amiga Lia –  de um  apartamento onde “tentava  construir uma família nas areias movediças de um pântano” (p. 40)-  medeia um  grande intervalo.
Os sinais de intimidade, de amizade, precisam e temem não ser reconhecidos. Há um intensificado retorno da narração às metáforas do olhar como janela da alma.
Lia telefona à sua amiga, mão de dois filhos, pedindo para “ver-lhe”. Enquanto esperava, a amiga de Lia fez uma “prece às estrelas para que Lia me reconhecesse como a menina que cuidara” .(p.40). Quando abriu a porta, diferentemente do primeiro memorável encontro, os “seus olhos não me acolheram. Eram olhos vazios, ocos. A mulher que me olhava de tão longe, era Lia e não era Lia. Eu tentava construir uma ponte de luz... mas era inútil.” (p. 40) (itálicos meus)
Sem que conseguisse entabular conversa, mostrando as novidades de sua vida – cachorro, filho – a jovem mãe que não era Lia, de repente reúne tudo que se passou através da terrível informação, acompanhada por um firme e seco olhar: Lia e sua vida foram quebradas por “eles”.
A repressão - sombra do assombro que perpassa os tempos vividos por pelo menos uma duas mulheres até ali -  e a opressão - sombra da casa de uma menina que viveu sua infância àenormedistância de um quarteirão da casa de sua amiga, seu refúgio - perpassam todo conto como um locus horrendus, lúgubre,  de morte. A alternativa da bela amizade construída entre duas meninas  – entre delicados jogos de luz, olhares,  as transformações de dois corpos, casas e espaços imaginados - é especialmente torneada por Roseana Murray ao final do conto:  como  uma espiral de força flexível contra os sinais de morte.  Depois que se aclara o motivo da solicitada visita de Lia, as duas mulheres que se reencontram são capazes de atravessar juntas um longo corredor para “na sala de uma casa de vila”, cantarem e  dançarem de novo a canção  Help dos Beatles. Estão vivas, sobreviveram aos duros tempos e celebram a sua antiga amizade em igualdade de condições.

 

 

Notas

 

 

(1)  Confronte-se que o interior de uma árvore como entrada para um outro espaço, viagem de sonhos foi explorado por Lewis Carroll em Alice no país das maravilhas.

 

(2) O conto A Felicidade Clandestina de Clarice Lispector apresenta uma menina diferentemente arrebatada pela possibilidade de ler o livro Reinações de Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo,  finalmente emprestado por ordem da mãe de uma amiga (que nunca o queria emprestar) quando teve a felicidade de o levar nos braços para a sua casa.

 

 

Por Maria Clara de Motta Maia Machado da Silva

 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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