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UM JARDIM SECRETO PARA SEMEAR POESIA

Fátima Miguez

O desejo de habitar um "jardim secreto" resguarda o ideal insaciável de eternidade paradisíaca que está nas origens da poesia. Passear nos "jardins" literários de Roseana Murray é frequentar, assim, o Paraíso da fonte poética, onde a palavra e a imagem encontram-se em harmonia.

Um jardim cercado de palavras e imagens coloridas por todos os lados, onde o poeta-sementeiro nos convida a plantar flores no território da imaginação. O poeta, ao evocar o objeto através da força mágica da poesia, busca o olhar primordial das coisas, conforme se lê em  "Flores alimentam sonhos / dão de comer aos olhos, / arrumam e desarrumam / formas e cores".

O envolvimento do eu criador com a obra em gestação é um processo que transparece no texto de Roseana numa travessia poética de clara revelação, como os versos atestam: "Do meu poema faço um jardim, / violetas, dálias, rosas, jasmim / colorida guirlanda de palavras / e vento."

Uma coroa enfeitada de "palavras e vento" sugere, simbolicamente, um poder de natureza iniciática. Reunir palavras e vento num círculo ornamental de poética formação traduz a mensagem metafórica dos mistérios da iniciação literária no cruzamento das trajetórias do criador e do fruidor.

É necessário a presença da sensibilidade poética para sentir e manifestar o sentimento de poesia que habita a humanidade. Essa disponibilidade criativa é sinalizada pelo "eu" lírico de Roseana ao apurar que "flores espalhadas ao longo do dia/ aladas, enluaradas/ ensolaradas/ são promessas de amor e poesia". este é o compromisso daqueles que buscam pela arte da palavra reinventar o mundo, semeando a seiva da poesia nos canteiros da existência humana.

Dando forma a fantasia, o poeta nos poupa da aspereza do mundo e nos devolve a capacidade de sonhar, conforme os versos dos "jardins" de Roseana registram: "Flores trazem notícias / do campo, / das cores do arco-íris, / da imensidão dos sonhos."

E o sonho tece , em imagens literárias de depurada sabedoria, o desejo de ler nas pétalas das flores o coração do ser amado. Recorrendo ao imaginário popular , na brincadeira do "Bem-me-quer, mal-me-quer", a poesia de Roseana recupera a paisagem da infância , imersa nos mistérios do mundo em estado mágico, a contemplar uma leitura sensorial da realidade, como presenciamos em : " Bem - me - quer, mal - me -quer, / busco o teu coração/ nas pétalas de seda, / a enluarada confirmação. "

Celebrar a poesia e o amor, num mundo de guerra e desamor, é urgente e requer seriedade e, principalmente, crença nos poderes da criação.

Diariamente, lemos notícias do terrorismo no mundo, da violência que se multiplica e nos impõe o medo, algoz invisível do homem. O excesso de realidade destrói, assim, os sonhos, portadores da bem-aventurança, do paraíso na terra. O sonho é o príncipio de tudo, é o que nos salva da dureza do dia-a-dia. O artista, profeta no sonhar e no narrar, anuncia o seu sonho e o reparte com os homens.

As flores traçam destinos e sinalizam caminhos de revelação para a leitura dos iniciados da poética do "país das flores", onde se fia  "auroras e sentimentos / com as coloridas linhas do horizonte". Na teia simbólica, dos "jardins" de Roseana , as flores fabricam "coloridos silêncios" desvendando o que é vedado à consciência. Trazer, assim , à luz o "jardim secreto" de paisagens míticas é reatar com os tempos inaugurais iluminados pelo clarão originário da poesia. Mito e Poesia, encontram-se, então, nos "jardins"de Roseana e comunicam, em linguagem cifrada, os conhecimentos primordiais da história do homem.

As ilustrações, de Roger Mello, são de uma sensiblidade poética que nos fazem contemplar demoradamente esse jardim de imagens esteticamente harmônico. Cada página é um espetáculo visual de rara beleza. O objeto livro é similar a um presente, com laço de fita e uma encadernação vazada em três pontos a transparecer uma pequena parte da extensa vegetação desenhada que se espalha pela capa principal. O projeto editorial é primoroso e integra-se ao conjunto da obra em dialógica comunicação.


Jornal do Brasil, 03/11/2001
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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