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A HISTÓRIA

Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

Sempre desejei receber, em minha casa saquaremense, a Joel, professor-doutor, nascido em São Paulo, educado em Minas Gerais e egrégio integrante do corpo docente da UFPA. Aliás, foi em Belém-PA que nós nos conhecemos e experimentamos o amor à primeira vista, sob a égide de Mário de Andrade, amor-comum que nos uniu quando eu ia proferir palestra, no congresso regional da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada), sobre Mário de Andrade e o samba. Pela primeira vez eu visitava a Amazônia, compreendia o amor apaixonado de Mário por aquelas paragens, e era recebido calorosamente por alguém já apaixonado por Belém, portal da Amazônia. Desde aquele ano, passei a freqüentar a belíssima capital do Pará e me tornei hóspede assíduo do Joel, amazonicamente generoso.

Finalmente, consegui que nossas agendas, a de Joel e a minha, coincidissem e pude acolher, em meu lar-templo-monastério-museu-biblioteca, aquele longínquo amigo, que me tem convocado tantas vezes a seu paraíso tropical.

Em nossas constantes conversações, Joel e eu, amantes inveterados da poesia, sempre trazemos à baila o nome de Roseana Murray, poeta de altíssimo quilate; ele, inclusive, já orientou trabalho final de graduação sobre a obra da premiada poeta, que mora em Saquarema. Em meu habitat saquaremense, feito de lembranças, obras de arte, sonhos e livros, tenho, logo à entrada da sala de visitas, duas pilhas de livros: uma tem a obra de Juan Arias, jornalista de El Pais, o mais importante periódico espanhol; a outra pilha acumula livros de Roseana Murray. Todos os que me visitam olham os livros ali instalados, guardiães de um templo da leitura e da escritura; alguns amigos folheiam-nos, lêem-nos e, até, mos pedem emprestados, um pedido recusado incontinenti. Com Joel não aconteceu diferentemente, pois, logo que adentrou minha casa-biblioteca, botou os olhos nos livros da Roseana; ele os tomou e começou a ler aquela poesia, feita de divina humanidade ou humana divindade. Como um antigo escriba, ele, o professor-doutor vindo do Pará, começou a copiar, pachorramente à mão, todos os poemas dos vários livros. Jamais eu vira semelhante cena. Na era do computador, um professor maduro transcrevia à caneta, poemas inteiros, livros inteiros. Ao mesmo tempo que ia copiando, ele os declamava, muitas vezes aos gritos. A tudo eu assistia, com intensa comoção diante de um amanuense amazônico. Num determinado momento, ele exclamou: “Agora tenho uma outra Clarice Lispector na minha vida!” De outra feita, gritou: “Eu não posso conhecer essa mulher!” Então, eu me lembrei de que, justamente nos dias em que Joel estaria comigo, Roseana cumpria seu papel de mãe, visitando um de seus filhos, que mora em Mauá e aniversariava. Mas Joel pudera, antes de ler, no contexto saquaremense, poemas de nossa poeta, ver sua mansão, à beira-mar, já que viéramos do Rio, beirando toda a orla marítima de Saquarema.Observando a paciência monacal e o entusiasmo dionisíaco com que Joel copiava poemas de Roseana Murray, eu dizia, cá com os meus botões, que ele, professor antigo, emblema, para mim, o leitor ideal, aquele que faz do texto um palimpsesto e de seu palimpsesto um outro texto, emoldurado na mais pura alegria.
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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