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CAFÉ LITERÁRIO ROSEANA MURRAY
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
Reinaugurando um antigo projeto e um constante sonho de suas rodas de leitura, Roseana Murray promoveu, dia 26 de abril, em sua casa à beira-mar, o “Café literário”, para o qual convidou professores e alunos da rede escolar municipal de Saquarema. Quando cheguei às 9h05, já a vasta varanda estava locupletada, configurando um populoso cenário, em que os alunos ficavam sentados por terra sobre tapetes. Ocupando o lugar central, a anfitriã-poeta proferia, com voz pausada e firme, uma peroração, em que desenhava o perfil do leitor como alguém que questiona o texto, preenchendo de significações as entrelinhas, as lacunas e os vazios. “Não existe texto inocente, porque a inocência ficou no paraíso perdido”, sentenciou, do alto de sua bíblica sabedoria a premiada escritora. Então, a leitura, como processo e exercício, faz o leitor desacreditar e questionar, ao mesmo tempo, o texto, de qualquer gênero que seja. Além do mais, podemos, pela leitura, viver em outras épocas, reinventarmo-nos constantemente, viver outras vidas, porque “uma vida só é muito pouco”. Acolhendo em sua casa uma pequena multidão de amantes da literatura, Roseana Murray explicou a dinâmica simples de sua roda de leitura, onde, naquela manhã esplêndida de céu quase absolutamente azul e de mar, ali em frente, exibindo um espectro de ondas de inimagináveis cores, ouviríamos a leitura de dois contos e estabeleceríamos uma comparação entre ambos. Agora de pé, com certa solenidade maternal, ela declamou “As paredes são frias”, conto do estadunidense Truman Capote, e um conto de sua lavra “Atrás das grades”, extraído do belíssimo livro Território de sonhos. Como pano de fundo à leitura quase sacra de textos clássicos, ouvíamos o marulho e o farfalhar das folhas, vindo de um exuberante jardim. A etapa seguinte consistiu em interpretações dos contos lidos, quando não havia mais distinção entre professore e alunos, mas éramos todos inveterados leitores, pontuando, com nossos desejos, expectativas, temores, amores, os desejos, as expectativas, os temores e amores de autores, um já morto, outro bem vivo, ali em frente a nós. Pela primeira vez, em minha provecta vida, eu assistia a um escritor ler seu próprio texto e se dispor a ouvir interpretações e exegeses. O terceiro passo da roda, ou ronda, de leitura foi um jogral, quando lemos, em coro, o sublime poema “O dia da criação”, de Vinícius de Moraes, que tem como refrão o musical verso “Porque hoje é sábado”. Completava-se, assim, o movimento dialético do café literário, em que a poesia era a gloriosa síntese de toda leitura. A perfeita anfitriã ofereceu, então, canjica, café e refrigerantes, antecipando, com garbo literário, as festas juninas. Roseana Murray solicitou que cada um, antes de ir-se embora, escrevesse, num comum caderno aberto, um outro poema coletivo, a partir do refrão viniciano. Lendo, em particular, as anotações, pude verificar que o refrão era o signo “felicidade”, não mais uma “felicidade clandestina”, à la Clarice Lispector, mas uma felicidade de todos os que se reúnem em torno do texto.