MARGINÁLIAS MUSICAIS: UMA CAIXINHA DE MÚSICA E DE POESIA
Em minha quase recente e cada vez mais densa convivência com a consagrada poesia de Roseana Murray, tenho notado, com prazer estético imenso, sua pulsante força imagética, sua dimensão metafísica singular e, last but not the least, sua sedutora musicalidade, virtude essa que a torna irmã, quem sabe gêmea, de Cecília Meireles, a Dama do modernismo literário brasileiro. Caixinha de música (Rio de Janeiro: Manati, 2004), livro que acabo de conhecer, em pleno carnaval de 2008, e pelo qual me encanto, exibe o lado musical dessa poesia - estruturada em métrica libérrima, aliterações, rimas internas, refrões, redundâncias, anáforas -, convocando, para ilustrá-lo, o musicista Guga Murray, que figura, em partituras, notações e pequenos poemas, a alma e o corpo, feitos de música pela poeta carioca. Na realidade, o livro em pauta constitui um concerto a seis mãos, dado que inclui, além dos sistemas semióticos da literatura, da música, a linguagem dos desenhos, lavrados pela pena de Sérgio Magalhães. No entanto, privilegio, no momento, o diálogo, travado no livrinho, entre a poesia e a música, artes nascidas irmãs-gêmeas, como unha e carne, mas que a história, nem sei por que cargas d’água, houve por bem e por mal separar; ambas as linguagens guardam uma nostalgia infinita de sua união arquetípica. O homem separou o que Deus um dia unira. Num passe de mágica, esta colorida Caixinha de música entoa uma saudade perene e busca, a seu modo, modular uma memória de letras e sons, versos e partituras, signos e sinos. Será o conjunto destes poemas-canções uma resposta e uma reflexão ao enunciado do esteta inglês Walter Pater – “All arts aspire towards the condition of music” -, que traduzo livremente, assumindo uma licença poética: todas as artes têm inveja da música. A música, que sempre ouvi nos poemas roseanos (note que grafo “roseanos”, diferenciando - mas remetendo, ao mesmo tempo - de “rosiano”, epíteto que se refere a Guimarães Rosa, o imenso poeta-romancista mineiro), encontra, na arte de Guga, seu alter ego musical, seu reflexo narcíseo em notas, seu duplo intersemiótico, sua tradução sonora. Na quarta capa de Caixinha de música, o excelente, e rigoroso, crítico literário Alexei Bueno, considerando o livro uma “obra-prima”, alude à “sutilidade incorpórea das metáforas”, à “beleza cromática das imagens”, e à “musicalidade, sempre presente e nunca ostensiva”, e às “delicadas melodias”. Tais traços podem, igualmente, ser observados no jogo metalingüístico que a intervenção de Guga estabelece com o texto poético. Com efeito, a parte musical da obra é discreta e requintada, ressaltando a poesia, sonorizando-a, jamais causando ruídos. O silêncio do poema não deverá ser interrompido jamais. Em sua estrutura de partitura, signos e indicações, a parte musical coloca-se como pano de fundo de uma figura máxima: a poesia. Trata-se de marginálias à Mário de Andrade, lídimo fundador da musicologia brasileira, escritor que escrevia como se compusesse música. As notações, quais notas de pé de página, apontam, convocam, traduzem, em outras linguagens, a linguagem da poesia. O que se lê primeiro: o poema ou a notação musical, se ambos mudam, metonimicamente, de lugar na página colorida? Não importa a ordem de leitura e entoação: o que conta é o contato, direto e apaixonado, com a arte, a grande Arte. Nas páginas, ou lados, multicoloridos desta caixinha musical, as partituras são fac-símiles da obra de Guga: aí se nota o tremor de seus dedos, face ao sublime da poesia materna. O musicista contamina-se de poesia e mistura ambas as linguagens, recorrendo, inclusive, a uma semiologia, que baila e canta no inconsciente e no imaginário coletivos. Ele, o musicista, é um técnico e pode reger, não só a leitura do poema, como a entoação da canção, a escanção dos poemas, postos em pentagrama. Sua leitura dos poemas, que transforma em música, sinaliza estados d’alma, momentos de reflexão, possibilidades de semiose. No diálogo “encantatório” de ambas as linguagens de arte, inscreve-se um jogo especular, que leva o leitor-ouvinte-cantor a se perguntar: quem veio primeiro, o poema ou a música? Estamos diante de uma aporia, quando, na verdade estética, o que interessa é o se ler, ouvir, usufruir o momento que se quer eternidade, “no som permanente do tempo imóvel”, como consigna Guga Murray, musicista tornado, de repente, pela magia da mão da mãe, poeta e filósofo. As linhas da mão da poeta entrecruzam-se com as linhas das mãos do músico: “a linha azul da vida” , “a linha dourada do amor”.
O mosaico musical compõe-se de dezessete poemas, onde a música, como signo e linguagem, aparece explicitamente somente a partir do décimo-terceiro – “Telhados” -, constituindo uma aparição, preparada por um cortejo, ou ouverture longa, de doze poemas. O penúltimo poema dá título ao livro ou tira do livro o seu título, vai-se lá saber: “Sete notas são tão pouco,/ mas são mais que o infinito,/ que todas as galáxias juntas,/ com seu anjos e cometas.// Sete notas musicais/ são mais que todos os mares/ com seus cristais e sereias.// Sete notas são mais/ que todos os grãos de areia,/ e fazem estradas e caminhos,/ e nos levam pelos ares, pelo chão,/ até o moinho do tempo”. Do lado esquerdo (como o coração da gente), Guga inscreve: “Nota: Esta pauta em espiral sem nada escrito é a peça que cada leitor vai compor, escrevendo aí sua própria seqüência de sons”. Quando desenha um horizonte de possibilidades semióticas, o jovem ecoa Umberto Eco, com sua proposta de “obra aberta”. O poema de Roseana Murray está dentro e fora da espiral traçada por Guga Murray. A faixa de Moëbius tem, agora, sua definitiva figuração musical e poética.
Mas o livro, partitura musical, não se encerra com o poema que incrusta seu título, que remete a uma infância feliz, ou a, como ainda diz Alexei Bueno, “um saudoso mundo perdido”. Totalmente musicado, “Babel outra vez”, drama lírico, retoma, como leitmotiv, a gata familiar que tem nome mítico, bíblico, semiológico, com todas as linguagens fundidas e confundidas. Bendito seja o mito de Babel, que decretou o fim da ditadura de uma língua e anunciou línguas, linguagens, discursos diversos. Morro de inveja (“santa inveja”, diziam os padres antigamente) desta gata, metáfora sublime do poeta, que mora, intemporalmente, numa caixinha de música e poesia, podendo, inclusive, abrir, quando desejar, “a tampa do verso” e cantar canções, entoadas nas linhas de um cordão uterino, que liga à música do Universo, em cujo princípio está o Verbo, em cuja origem modula-se o Ritmo.
Não se fecha totalmente a caixinha de música com dons de poesia. Ao final, que não é clímax nem grand-finale, nem epílogo nem coda, nem poslúdio, mas estaria no lugar de um prólogo, ou ouverture, ou prefácio ou prelúdio, a página abre a correspondência amorosa da mãe com o filho, da poeta com o musicista, da escritora com seu leitor privilegiado. Nessa página singela, não há notações nem figuras. Há o verbo poético, que encerra, essencialmente, o som. A poesia já não mais guarda inveja da música.
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
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