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Análise estilística de fragmentos do livro "Classificados poéticos"

Adriana Lopes de Oliveira


Resumo: O livro "Classificados Poéticos" de Roseana Murray baseia-se no formato tradicional do classificado do jornal, utilizando palavras comuns dentro deste universo, tais como: vendo, troco, procuro, alugo... Ao utilizar palavras simples, que fazem parte do cotidiano, a autora consegue aproximar-se do leitor e levá-lo à reflexão. Analisando com mais atenção, percebemos os efeitos estilísticos refletidos em seus versos. Sentimentos, anseios, inquietações são retratados, de forma romântica, lúdica e envolvente. A interpretação do que é exposto por Roseana é mais complexo e mais significativo, do que aparenta à primeira leitura. Por um lado, um divertido jogo de palavras, faz alcançar mais rapidamente seu público-alvo, o infanto-juvenil; por outro, a autora consegue atingir os demais leitores, aguçando a curiosidade, levando-os a buscar o sentido implícito em cada verso. A aliteração e a assonância trazem sonoridade ao texto. A metáfora e a antítese corroboram para expressar o jeito sonhador, otimista e sensível da escritora. Cada trecho do poema leva a sensações diferentes. Há perfeita harmonia entre os elementos utilizados, gerando um desejo, quase infantil, de libertar-se dos preconceitos e participar ativamente, desse “mundo de sonhos”.


Roseana Murray sempre se dedicou a escrever para o público infanto-juvenil. Publicou 43 livros, tem poemas traduzidos em 6 línguas e ganhou diversos prêmios, entre eles, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras em 2002 para o livro "Jardins" da Editora Manati, RJ. Além disso, implantou em Saquarema junto com a Secretaria Municipal de Educação, o Projeto "Saquarema, uma Onda de Leitura".

Destaco, aqui, o livro "Classificados Poéticos", publicado em 1984 pela Editora Miguilim, cujo fragmento teremos a oportunidade de analisar estilisticamente.
Certamente, não foi por acaso que Roseana escolheu esse nome para o seu livro. Traçando um paralelo entre o classificado comum do jornal e o Classificado Poético, encontramos em ambos a mesma essência. Entretanto, podemos observar diferenças em termos estruturais, gerando os efeitos estilísticos.

O classificado comum do jornal faz referência objetiva do que está sendo anunciado, de modo a facilitar o leitor a encontrar o que deseja. Nele, há ausência de artigos e preposições, pois, quando usados, contam como palavras, tornando o anúncio mais oneroso. Já os sinais de pontuação, por não serem contabilizados, são utilizados normalmente. Nos classificados poéticos, quase não aparecerem sinais de pontuação, o que deixa o texto bem interessante, passando a idéia de movimento, de agilidade, de ritmo. Além disso, a utilização de artigos e preposições, torna-o ininterrupto, marcando a continuação de idéias.

O formato de classificados nos remete a algo real, que faz parte do cotidiano, o jeito lúdico da linguagem proporciona brincar com a imaginação, ficando fácil encontrar quem sonhe comprar "uma casa encantada, que possui quartos que aumentam ou diminuem de acordo com seu tamanho e que na garagem há vagas para todos os seus sonhos". O traço do classificado foi bem marcado com a utilização das palavras: vendo, troco, procuro, alugo... Esses verbos dentro deste contexto têm caráter elucidativo porque levam o leitor a associar o Classificado Poético ao classificado comum.
O termo classificado, no sentido mais amplo, sugere ainda a necessidade de mudança, de transformação que o homem busca ao longo da sua vida. Anunciamos aquilo que queremos nos desfazer, que não é mais útil, da mesma forma, aquele que lê os anúncios deseja encontrar um novo carro, uma nova casa...

A partir deste ponto, passaremos a analisar cada parte do poema detalhadamente:


Parte número 1

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate
nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores da floresta.

Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves
tenham no rosto um olhar de criança.


Nesse fragmento, a autora usa como determinante, a esperança de encontrar, no momento atual, um lugar considerado perfeito para viver, sem violência e que proporcione a relação harmônica entre os homens e a natureza. Lugar e tempo são reforçados nesses versos, principalmente através da palavra "onde" que aparece repetidas vezes. Isto é, o "onde" determina em que lugar se está agora, passando a idéia do tempo presente. Embora não tenha utilizado o verbo "procurar" no presente do indicativo que seria uma marca mais forte do tempo atual, optando pela forma "procura-se", ela cria um ar de mistério, pois ao analisarmos o sujeito "algum lugar no planeta", questionamo-nos: que tipo de lugar é esse? Será que existe? É possível encontrá-lo?

Podemos destacar também, a palavra "grave" que tem por definição melódica, um som de freqüência baixa e traz para o texto um efeito quase sonoro. Ao mesmo tempo, apresenta um sentido dúbio, por um lado indica a musicalidade, por outro remete a um indivíduo que carrega traços de desânimo, de amargura, de negatividade; dessa maneira, "o olhar de criança", simboliza a pureza, a ingenuidade, a simplicidade para enxergar aquilo que está a sua volta. Ampliando essa visão, deparamo-nos com as palavras "dança" e "festa", que dão ênfase à expectativa musical, pois tanto uma como outra se fortalecem com a música.

As palavras "planeta", "festa", "criança", expressam sentido de movimento, de rotatividade. Mesmo quando Roseana cita "engarrafamento" na parte 2, reforça este conceito: anda, pára, anda...; ou seja, um movimento constante.

O artigo indefinido foi bem valorizado nesta obra e tem forte valor estilístico. Ao destacarmos: "uma festa", "uma dança", "um olhar de criança", notamos que não foi determinado que tipo de festa, de dança, de olhar de criança; pode ser qualquer um que já se encontre em nossa memória, ou algum que tenhamos definido como padrão. O importante é que seu uso sensibilize e envolva o leitor. Como afirma M. Rodrigues Lapa em Estilística da Língua Portuguesa (1991. P.91): "A capacidade estilística do artigo indefinido está na imprecisão que dá às representações. Serve para traduzir a imprecisão e o mistério". Ele também assegura que "a indeterminação e o mistério vão quase sempre acompanhados de movimentos da sensibilidade".


Parte número 2

Troco um fusca branco
por um cavalo cor de vento
um cavalo mais veloz que o pensamento
Quero que ele me leve pra bem longe
e que galope ao deus-dará
que já me cansei deste engarrafamento...


O verbo "trocar" vem na primeira pessoa do singular, marcando o estado emotivo, o envolvimento direto da autora. Ela compartilha o seu desejo de seguir sem destino, desabafa sua insatisfação com os problemas diários e expõe a sua vontade de mudança.

A aliteração e a assonância surgem trazendo um efeito sonoro e refletindo a vibração de sentimentos. Destacando a passagem "e que galope ao deus-dará", vamos experimentar no primeiro momento, a impressão de que ela não está preocupada para aonde vai e como vai viver, o simples fato da mudança já é suficiente. Analisando o termo: "deus-dará", vamos perceber a relação entre a escolha e o efeito. Estilisticamente temos o uso do "D" servindo para reproduzir um som de passos pesados e ainda o uso do "A" reforçando as batidas bem audíveis. Sendo assim, "deus-dará" remete ao som do galopar do cavalo.

Os termos "vento" e "veloz" sugerem sonoridade de caráter contínuo. Podemos comparar à sensação de corrente de ar quando alguém passa correndo muito próximo de nós, dependendo da velocidade temos a percepção do vento, como uma espécie de sopro mais forte. Assim ocorre no texto, as palavras parecem bailar no ar. Quanto à utilização da anáfora, em: "um cavalo cor de vento", "um cavalo mais veloz que pensamento", serve para destacar o elemento principal, o que de certa forma, não acontece no anúncio comum do jornal, que evita repetir palavras, para não onerá-lo.


Parte número 3

Perdi maleta cheia de nuvens
e de flores,
maleta onde eu carregava
todos os meus amores embrulhados
em neblina.
Perdi essa maleta em alguma esquina
e algum sonho
e desde então eu ando tristonho
sem saber onde pôr as mãos.
Se andando pelas ruas
você encontrar a tal maleta,
por favor, me avise em pensamento
que eu largo tudo e vou correndo...


Nessa parte, ocorre uma aproximação maior com o leitor. Além de explicitar seus sentimentos, ela o convida a uma participação ativa quando cita: "Se andando pelas ruas você encontrar a tal maleta, por favor, me avise em pensamento", a relação fica tão estreita que basta "o pensamento" para haver a comunicação. Esse envolvimento faz com que o texto flua melhor.

Os elementos "nuvens" e "flores" são aproximados, e, ao analisarmos a oposição de lugar em que se encontram (um no céu, outro na terra), temos a figura de pensamento antítese. "Lugar" é mais uma vez mencionado e encontra suporte em termos como: "esquina", "ruas", "vou correndo"; todos fazendo referência a lugares.

O jeito sonhador e romântico é evidenciado também em "nuvens" e "flores". E este romantismo é grifado em: "todos os meus amores embrulhados em neblina", ou seja, amores que já não mais iluminam, que foram encobertos por outros sentimentos. A ligação com o passado fica evidenciada nessa passagem, o sentimento de tristeza por ter deixado para trás sonhos que não foram adiante, e, que passam a sensação de vazio que ela mesma exemplifica em: "sem saber onde pôr as mãos", isto é, não tem mais o apoio que esses "sonhos" forneciam.

A metáfora ganha espaço dentro deste universo imaginário. É incontestável a qualidade estilística decorrente de uma visão impressionista, atraindo com mais eficácia o público infanto- juvenil.


Parte número 4

Vende-se uma casa encantada
no topo da mais alta montanha.
Tem dois amplos salões
onde você poderá oferecer banquetes
para os duendes e anões
que moram na floresta ao lado.
Tem jardineiras nas janelas,
onde convém plantar margaridas.

Tem quartos de todas as cores
que aumentam ou diminuem
de acordo com o seu tamanho
e na garagem há vagas
para todos os seus sonhos.


O "tem" aparece três vezes reforçando a aliteração, indicando posse, e contribuindo para projetar a descrição. Assemelha-se muito ao anúncio diário, que no caso de venda de um imóvel, por exemplo, também irá descrever o que ele tem de mais atrativo, para despertar o interesse do possível comprador ou locatário. Quanto mais descritivo for o anúncio, maior será a probabilidade de atingir o seu objetivo.

Ao indicar: "no topo da mais alta montanha", "moram na floresta ao lado", há uma expectativa de situar quem está lendo, num espaço concreto. Sem perder o foco, ela brinca com a antítese, valorizando o tamanho, como em: "alta montanha" – "anões e duendes" (baixa estatura). "aumentam ou diminuem", "amplos salões"; e ressalta a sonoridade nos versos com a assonância.

A relação com o leitor torna-se cada vez mais estreita quando cita: "Tem jardineiras nas janelas onde convém plantar margaridas". O aconselhamento sugere esta relação de intimidade, as margaridas simbolizam a delicadeza, a sensibilidade, a simplicidade.

No último verso, ela dá ênfase à multiplicidade de opções que o homem tem para ser feliz. No trecho: "tem quartos de todas as cores", estes, simbolicamente podem ser comparados aos diferentes caminhos que vão levar a felicidade. Os "sonhos" vão adequar-se ao desejo de cada um, como é ressaltado em: "e na garagem há vagas para todos os seus sonhos".

Ao longo desta análise estilística, observamos que, apesar de o livro Classificados Poéticos ter sido publicado há 22 anos, ainda é atual. O homem continua destruindo a natureza, matando animais, matando outros homens, ainda há engarrafamentos...

Em alguns momentos encontramos uma subjetividade mais acentuada que obteve reforço nos indicadores de tempo e lugar. Todo o sentimento passado na poesia de suas palavras demonstrou o interesse em estar o mais próxima possível daquele que compartilha de suas experiências, das alegrias e das tristezas, das perdas e ganhos e não podia ser diferente, uma "ponte" foi construída entre a autora e o leitor.

Percebemos que Roseana demonstrou um estilo voltado para a relação estabelecida entre o desejo e a emoção, sem esquecer de enriquecer o conteúdo com doses de sabedoria. Estilisticamente esse fragmento do livro enquadra-se na definição de Mattoso Câmara Júnior: "Estilo é a linguagem que transcende do plano intelectivo para carrear a emoção e a vontade".

Referências
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37 ed. Rio de Janeiro, Lucerna, 2005.
CÂMARA JR, J. Mattoso. Contribuição à estilística portuguesa. Rio de Janeiro, Ao livro Técnico. 1977.
CRESSOT, Marcel. O estilo e suas técnicas. São Paulo. Martins Fontes. p.13-21.
GALVÃO, Jesus Bello. Subconsciência e afetividade na língua portuguesa. Rio de Janeiro. Ao livro técnico. 1979, p.55-84.
LAPA, M. Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. São Paulo. Martins Fontes, 1991.
MARTINS, Nilce Sant'Anna. Introdução à estilística. São Paulo. T.A. Queiroz. p.189-218
MURRAY, Roseana. Classificados Poéticos. São Paulo. Companhia Editora Nacional. 2004.

Adriana Lopes de Oliveira é graduada em Pedagogia e faz pós-graduação em Língua Portuguesa no Centro Universitário Augusto Motta, Rio de Janeiro, onde apresentou este texto em 2007.
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
Foto do cabeçalho: Bruno Veiga (Divulgação Ed. Objetiva)
Criação: Gustavo Girard
Administrado por Lammota Comunicação