A ROSÁCEA DE ROSEANA MURRAY
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
“J’arpentais un sable infinement vierge. J’étais le premier à faire ruisseler, d’une mais dans l’autre, comme un or précieux, cette poussière de coquillages. Le premier à troubler ce silence. Sur cette sorte de banquise polaire qui, de toute éternité n’avait pas formé un seul brin d’herbe, j’étais comme une semence apportée par les vents, le premier témoignage de la vie”.
Antoine de Saint-Exupéry, Terre des hommes. |
Por onde começar a traçar uma resenha sobre a poesia dessa escritora, premiada, inclusive, pela Academia Brasileira de Letras, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e pela Associação Paulista dos Críticos de Arte? Tendo começado a publicar em 1980, Roseana Murray, destaco: Jardins ( Rio de Janeiro: Manati, 2001), O mar e os sonhos ( São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004), Classificados poéticos ( São Paulo: Cia Editora Nacional, 2004), O xale azul da sereia (São Paulo: Larousse, 2006).
Quase ao acaso, abraço o livro Desertos (Rio de Janeiro: Objetiva, 2006), em cujo pórtico a Poetisa declara, num texto intitulado Um caderno de viagens : “ (...) Quando Roger Mello me trouxe seu Caderno de viagem , onde foi desenhando a viagem que fez pelo deserto, imediatamente me transportei para estes vastos espaços, eu me vi criança andando com os povos do deserto, quando ouvia as histórias da Bíblia ou lia As mil e uma noites. Senti um desejo imenso de ilustrar aqueles desenhos com meus poemas”. Na realidade, o precioso livrinho anuncia, ainda em sua abertura, pela boca do ilustrador: : “Marrocos, 22 de setembro, aportamos em Tanger, depois de atravessar o Estreito de Gibraltar. Seguimos viagem em ônibus”. Aí pára o texto de Roger Mello, que já está oferecendo seus desenhos e que, previamente, ilustrara o exuberante Jardins. E somos tomados pela mão de uma nova Beatriz, cujos poemas (são 24) enumeram-se como contas de um rosário, versos de uma litania, linhas melodiosas de um mantra. A Poetisa se viu criança. Eu, viajor destas escrituras ilustradas, revejo o Pequeno Príncipe.(1943), maravilhosa fábula do aviador-escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), que voava, durante a Segunda Guerra Mundial, em avião-correio, entre Paris e Buenos Aires, tendo que fazer escalas no Rio de Janeiro e, sobretudo, em Florianópolis-SC, onde cultivou amigos, por eles carinhosamente conhecido como Zé Perri. Aliás, também Saint-Exupéry legou à humanidade seus Carnets, postumamente publicados em 1953, onde registra, fragmentariamente, suas impressões de viagens pelos céus dos dois hemisférios. Toda a história do principezinho desenrolou-se num deserto “a mil milhas de toda região habitada”. Todos os desertos são iguais, seja o Saara ou outro. O deserto, arquétipo ab aeterno, não tem um lugar exato. Será um estado de espírito. Um céu na terra. Talvez o escritor de Lyon, desaparecido no mar da Córsega, tenha sonhado aquela narrativa, se tenha visto criança ao espelho alegórico do texto, projetando na fábula sua filosofia tão budista e essencial, que tem encantado gerações e gerações de leitores.
O deserto , os desertos de Roseana são uma palheta, de onde faz surgir poemas-quadros. Sherazade terá assumido seu lado de artista plástica. De cada signo traçado escancara-se uma janela, de onde se vislumbra o infinito do deserto. Cada verso desenha uma trilha para imagens inesperadas. Cada estrofe promove uma alucinação. Cada poema eclode uma miragem. O livro inteiro opera uma viagem. Na poesia delirante deste livro ilustrado, o deserto abre-se como um livro, um grande livro: “ serão os cactos/ as palavras do deserto,/as sílabas duras/ cheias de água disfarçada (...)” (“TRÊS”); o deserto existe para quem sabe e saboreia “a escrita/ do vento nas dunas” (“DEZESSETE”).
Todavia, a plasticidade estonteante destes poemas não abole a narrativa, porque, de origem médio-oriental, a Poetisa conta, ecoando as histórias intemporais da Bíblia e os contos das Mil e uma noites. O deserto não teria história, porque abriga todas as histórias. Roseana tem o dom da concisão e o domínio da linguagem, traços que me fazem pensar em João Cabral de Melo Neto, Poeta-engenheiro, Poeta da secura nordestina, Poeta da pedra e da lâmina mais afiada. Numa linha, sutilmente narrativa, o poema “QUATRO”, por exemplo, lança o leitor em todo um imaginário semita: “Como sentinela/ o tapete se balança/ na janela,/ guardião de um tempo/ sagrado, bíblico, dourado,/ onde na beira de um poço/ um anjo descansa suas asas”. Precisa em termos, enformada por parcas palavras, com espírito de haicai, a poesia de Roseana jamais tem aridez, como seria o deserto pejorativo. Irmã íntima de Cecília Meireles - a Poetisa carioca da música e da ternura mais nostálgica -, ela inscreve este epílogo no poema “SETE”, que perscruta “uma casa / caiada/ na orla/ do deserto”: “Quantos desejos,/ como água oculta,/ ficaram soterrados/ na areia do deserto?” O deserto ilustrado está povoado de almas das mulheres; “as almas das doze concubinas/ escapam pelas frestas das janelas/ e vagueiam pelo deserto/ como lamparinas/ assombrando as caravanas” (TREZE”). Música e poesia se irmanaram, desde sempre: “A musica é feita/ de areia e vento:/ partitura de tempo” (VINTE”). Esta poesia sonha e urde a poética da utopia, mais humana e mais angelical ou divina.: “Vai o caminhante,/ grão por grão,/ atravessa o tempo e o deserto./ Antes dele já passaram por aqui/ anjos com ânforas e escadas,/ construtores, adivinhos, profetas,/ toda a legião dos homens que caminham/ carregando um saco de sonhos nas costas” (“OITO“). É como se, palheta em punho e caneta à mão, a Poetisa se plantasse no coração do deserto, se transfigurasse em rosa do deserto, orvalhada pelos mais misteriosos espíritos, aí descobrindo suas lendas, seus segredos, seus personagens, bíblicos (“uma estátua de sal”, “DEZ”) e pessoas comuns, não havendo, na arte, distinção de classe social, seja histórica ou fictícia. No meio do caminho do deserto poético, surge “Enfim a grande cidade/ e suas misteriosas esquinas./ As janelas são vagalumes ardentes/ na noite escura./ Como abelhas sussurantes,/ fragmentos de vozes/ chegam do deserto./ vozes de outro tempo,/ quando os anjos ainda falavam/ a língua dos homens” (“DOZE”). Todo deserto esconde, ciosamente, um oásis, que jorra poesia. Poema é pouso e repouso. Sonhar no deserto, amparados com os signos da poesia e do desenho, não significa que devamos esquecer o mundo cotidiano. A viagem quase acabou e “já se recolhem todos/ ao sono de areia” (“VINTE E QUATRO”). No entanto, restam a todos “rabiscos de poemas/ a fotografia revelada,/ um último adeus num cibercafé,/ a lembrança de um grande silêncio” (“VINTE E QUATRO”). E tudo é silêncio denso, no deserto ilustrado e poetizado.
Tinha plena razão Clarice Lispector e Walmir Ayala, quando disseram, do fundo de sua sabedoria poética, ser Roseana Murray uma imensa Poetisa. Mais recentemente, o consagrado Poeta, fazendeiro (não do ar, como diria Carlos Drummond de Andrade, mas do Pantanal Mato-grossense), Manoel de Barros consignou este depoimento, que inaugura o livro Jardins : “Querida poeta Roseana, gostei do seu Jardins. De suas guirlandas de palavras. Gostei de ler seu verbo a prender os perfumes, as cores, as formas e o sol sobre as flores. Há por certo uma poeta sensível às coisas da natureza neste Jardins. Isso eu vi e senti. Meus parabéns, cara poeta, e um abraço afetuoso do Manoel de Barros. Campo Grande, agosto de 2001”. Os seres todos do deserto repetem: “Amém Privilegiados e abençoados todos aqueles que podemos atravessar desertos e percorrer bosques com um alforje de sonhos poéticos, incrustados na rosácea de Roseana Murray.
Publicado na Revista Poiesis em 2007
Publicado na Revista Poiesis em 2007
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