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ekligerman
@yahoo.com
Roseana,

Meu nome é Luiza, sou da equipe do Projeto Círculos de Leitura e é com muita ternura e com uma profunda gratidão pessoal que lhe escrevo hoje.

            Quando começamos a trabalhar seus textos de Território de Sonhos dentro das atividades do Projeto, percebi, entusiasmada, que seus contos, muitas vezes curtos e aparentemente simples, serviam maravilhosamente bem como matéria-prima para discussões aprofundadas sobre temas que considero essenciais. Sou responsável pela memória escrita de grande parte dos grupos de leitura e discussão que acontecem na Casinha e, a cada vez que revia minhas anotações, transformando-as em um texto sobre o encontro, voltava a me deparar com a força das idéias nele contidas.

            Vejo este meu trabalho como uma forma de preservar a memória de nossos encontros e da relação do grupo com o texto em questão, mas sempre tenho em mente o fato de que a intensidade do grupo e os produtos das leituras coletivas, que sempre me surpreendem por sua dinâmica cadenciada e sua originalidade interpretativa, dependem diretamente do quanto o texto trabalhado é capaz de tocar a sensibilidade de cada indivíduo presente. Essa sensibilização individual é condição prévia para que cada sensibilidade particular, no jogo com as demais sensibilidades que o espaço do grupo permite, possa contribuir com a construção coletiva de que meu trabalho é um relato tão preciso quanto me é possível fazer. Insisto no termo sensibilidade devido à certeza que tenho de que toda boa literatura mobiliza e põe em jogo facetas do ser humano que não só a racional, e é por isso que vejo a leitura e a discussão em grupo como um momento de encontro e diálogo entre sensibilidades e não só como um espaço de troca de idéias, de crítica literária, análise estrutural e simbólica etc. E a pouca experiência que tive neste sentido – porque creio que sempre há muito que aprender neste campo – me mostra que os textos capazes de promover este tipo de sensibilização são, antes de tudo, muito boas histórias. E uma boa história é justamente aquela que o autor, num diálogo tácito com o leitor, escreveu com base em sua... sensibilidade. O contato mais genuíno que pode se dar entre duas pessoas, na minha opinião, se configura a partir da intersecção possível entre a sensibilidade destas duas pessoas. O mesmo se dá, ainda que com particularidades, em literatura: o autor oferece ao leitor sua sensibilidade, sua maneira de apreender o mundo (num sentido bastante amplo), e confia que o leitor irá confrontá-la com a sua própria, dando origem àquele ponto incerto e maravilhoso onde autor e leitor efetivamente se encontram. Este ponto não pode ser precisado de antemão pelo autor, justamente por depender do encontro com um incerto leitor, mas sinto que toda boa literatura pressupõe sua existência e se constrói com base nela.

            É pensando nestas questões e analisando o resultado do trabalho com seus textos que posso afirmar que os jovens participantes do Projeto têm sido capazes de encontrá-la através de seus textos, que carregam consigo a impressão da sua sensibilidade. E sei que isso não se dá, absolutamente, à sua revelia, porque pouco ou nada importa a presença física, concreta, do autor. Penso que, ao propagar sua sensibilidade através dos textos que oferece aos seus incertos leitores potenciais, o autor confia na possibilidade deste contato como um náufrago confia na idéia de que alguém encontrará a mensagem que ele coloca em uma garrafa e lança ao mar. A mensagem, no caso de um escritor, é a impressão sensível de sua maneira de apreender o mundo, subjacente à sua literatura. Roseana, os participantes do Projeto encontraram a sua garrafa, tiraram a rolha úmida de maresia e se encontraram com você neste espaço muito etéreo em que se intersectam as sensibilidades. E é ótimo saber que, através da Catalina, nós podemos agora devolver algumas das nossas garrafinhas e cruzar concretamente nossas vidas, ainda que à distância, como se fôssemos, talvez, marujos acenando de um navio ao longe...

            Isso dito, gostaria que você soubesse que um livro seu em especial – Classificados Poéticos – foi muito importante para mim no início da minha vida de leitora. Se me interessei desde cedo por literatura, e se hoje a literatura é parte central da minha vida, devo isso a todos os que me incentivaram neste sentido. Alguns o fizeram de forma direta, como meus pais e alguns professores especiais que encontrei ao longo da vida; outros, de maneira mais indireta, e aqui se incluem os autores dos livros que me tocaram neste momento tão crucial que é o início da vida de um leitor. Quando eu estava na quinta série, este seu livro foi adotado como um paradidático pela escola em que estudei, e lembro de deitar na minha cama e ler cada poema repetidas vezes, como tantas vezes antes havia repetido os mesmos jogos de criança, elaborado os mesmos enredos com as mesmas bonecas. Mas havia uma diferença fundamental: lendo, eu não estava sozinha. E, depois de muito ler, senti que era natural retribuir – não necessariamente a você, a autora, mesmo porque, quando temos 11 anos, o culto à personalidade inexiste e o livro flutua, autônomo, em nossa... sensibilidade. Quis retribuir a um incerto alguém, que se encontrava nesse mundo vasto que tinha me ofertado aquele livro. E então escrevi duas séries curtíssimas de poemas, Classificados Absurdos e Classificados Aquáticos, que ficaram adormecidos no fundo do meu computador (já sou da geração que não usa gavetas para esse fim...) até hoje, quando se me apresentou esta oportunidade de retribuir de maneira concreta e direta a você. Eles despertam, em mim, uma grande ternura; um gosto de gesto inaugural, de primeiros passos. Seguem, portanto, estas séries de poemas, relato da sensibilidade ingênua e descompromissada de uma garota de 11 anos, e seguem também dois textos mais recentes, retrato de uma sensibilidade um pouco mais... vivida? Talvez, mas que com certeza dependeu e dependerá ad eternum do contato com os autores em que esbarrou e vai esbarrar ao longo da vida para desenvolver-se. Enviar estes textos a você foi a maneira que encontrei de estender-lhe a mão, da mesma forma que você o fez, há dez anos atrás, quando seu livro apareceu na escrivaninha de uma menina de 11 anos que adorava gatos e vivia subindo em árvores e ralando os joelhos enquanto brincava de pega-pega.

Muito obrigada, sempre, e um grande abraço.

Luiza Gianesella


Classificados Absurdos (1998)

Compro um balde de tinta
tinta da juventude
tudo isso em virtude
de disfarçar minha idade
que já passa de cento e trinta.

Compro nada
pago bem
Vendo nada
também
Troco nada por nada
E sem nada eu fico sem

Vendo um produto misterioso
Por um preço camarada
Pode ser vento, pode ser tudo,
Mas também pode não ser nada.
 
Vendo:
Casacos de pele sintéticos;
Sapatos de couro sintéticos;
Bolsas de pele de jacaré sintéticas;
Na minha loja de cosméticos.
Casacos de pele de verdade;
Sapatos de couro de verdade;
Bolsas de pele de jacaré de verdade;
Na minha loja de maldade.


Classificados Aquáticos (1998)

Sereia de olhos azuis
Sereia de concha no seio
Sereia cheia de luz
Procura um sereio

Sereio gentil e romântico
Sereio de rabo cor de areia
Sereio do oceano atlântico
Procura uma sereia

Cavalos marinhos
Algas marinhas
Azuis marinhos
Querem se alistar na Marinha.



A Rua

Com que pés eu passo pela rua em dia claro? O asfalto pareceria hematita não
fossem os rios em miniatura saindo da casa que sempre cheira a creolina. Atravessado,
um homem atarracado come torresmo no bar que cheira pior que creolina e o dia está tão
claro que espanta. A rua se curva.

Com que pés eu passo pela rua? Só o sabe um beagle gordo de olhos vermelhos
que se arrasta num quintal terracota. Quem percebe seus olhos quase humanos? Um
gato cotó, que é rajado, deita-se no asfalto que parece alcatrão, pobre gato. A rua é
circunferência de raio infinito.

Com que pés eu passo? A arara-azul parece me repreender de seu poleiro, berra
e ameaça voar com suas asas pirotécnicas. Que arara tão azul numa casa tão cinza! Um
mendigo profere impropérios para além dos padrões morais. Meus pés apertam o passo
e o asfalto, que parece chumbo, é o melhor amigo do homem.

Com que pés, eu? Mãos obsessivas defloram cirurgicamente um jardim florido,
sua dona sorri e galhos retorcidos incomodam mais do que o sorriso-margarida. Que
pensam as plantas sobre o velho que cospe? Que cospe com mil gatos comendo sobras
em bandejas de isopor? Que cospe em meus pés por detrás de óculos de tartaruga? Que
cospe no asfalto que parece?

Com quê? Numa casa oblíqua, um velho que não cospe acena-me com mãos
frágeis, enrolado numa manta xadrez. Eu aceno de volta e o asfalto parece asfalto.

Um dia, não houve aceno.
E então nem asfalto, e nem meus pés.
Nesta rua, nesta rua tem um bosque…


Mestre de Cerimônias, I

Silêncio. Sobe a luz
e surjo por entre o lurex já não tão dourado
de uma cortina drapeada.
Sorriso em riste.
Sob a garoa de aplausos que então se instala
eu abro os braços
– quase em êxtase, ou pelo menos assim pareço –
e enceno esta institucionalizada hipérbole
que me cabe. Eu mesmo quase creio
que o raio do picadeiro
é infinito.

No entanto, a apenas dez,
quinze metros de mim,
este público tão respeitável
começa a se encharcar de luz e lantejoulas
e a música bufa que preenche o circo
e o transborda – também para dentro –
já é quase um mantra pelo avesso
que faz pôr para fora o olhar.

A dez, quinze metros de minha cabeça
jazem trapézios; mas logo acima
a lona se afunila
e aponta
uma estrela.

 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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