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Amiga Mãe...
Prezada Roseana, escrevo-lhe para saciar a sede de algumas palavras que querênciam por águas do teu olhar, que neste ponto, exclamam por tua atenção. Como poeta, nasci no meio das páginas de teus poemas. A tua essência poética, citada no livro Poesia Essencial, contribuiu na formação do caráter de um menino, que desde então, passou a compreender o espírito dos poetas. Agora, ja homem, passo a compreender o espírito dos homens.

Para que se achegue mais a mim, falarei mais de minha pessoa. Minha graça, Franks Ramoon, traz em si marcas de uma geração que se dissipou de terras em busca de soluções para o extermínio de um grande inimigo da Paraíba: a Fome. Minha mãe,literalmente uma ‘Diva’(por ser sua graça), rompeu em fuga da tradição que a acorrentava numa condição estéril de não poder sair de perto dos familiares. Na sua chegada a São Paulo, esta ‘pequena menina de olhos sinceros’, encontrou o amor que também partira de sua terra natal. Pai meu, me semeou em terras que é Mãe. Em meio às dificuldades, ambos me presentearam com quatro irmãos: Diego, Thiago, Heloísa e Erica, e colocaram em minhas mãos a condição plena de salvar a história da minha genealogia.

Aos catorze anos, morava em uma das periferias de São Bernardo do Campo, tendo que trabalhar devido o falecer de meu pai e estudar devido à formação de meus irmãos. Em minha família, ninguém jamais teve acesso ao mundo dos livros, senão minha mãe, que me contava estórias que lera quando ainda moleca-sapeca. No entanto, a primícia dos meus primeiros contatos surgiu quando uma amiguinha, de infância, me emprestara um livro, com uma saudade antecipada, sentida quando ainda passava a preciosidade sagrada para as minhas mãos. A questão é que ela se mudou, e por motivos de pressa, esquecera em minhas mãos aquela raridade. Este fato provocara em mim uma necessidade de afeto, sabendo que guardava um pedaço da infância de minha melhor amiga. Cuidei deste livro, mesmo sem entendê-lo. Tratava-se de um livro de poemas do Fernando Pessoa.

Em meados desta idade, conheci a biblioteca de minha escola. Preocupado com o livro de minha amiga, decidi guardá-lo em minhas gavetas memorais e doá-lo para biblioteca. Observando as prateleiras, reparei que os livros estavam vestidos com uma grossa poeira palpável, fazendo-me pensar que talvez o melhor lugar para guardar aquele livro, além das gavetas memorais, seria em meus próprios cuidados. De repente, meus pensamentos tímidos, calaram-se. O livro: capa verde de maçã despertara em mim uma fome; não a Fome de Paraíba, mas uma fome de saber. Arrebatando minha atenção para o título avermelhado – “... com poeira não...”, admirei profundo, a graça do livro: Poesia Essencial. Este foi o primeiro livro que emprestei de uma biblioteca pública.

Neste livro existem várias essências vertentes. Estas vertentes denunciaram-me as infinitas possibilidades de compreender: livros, a vida, estórias de Mãe, poetas (como o próprio Fernando Pessoa), de ter amigos à distância, e nos relacionarmos através de idéias. Foi assim: - “... que tu mulher, entraste por minhas janelas com um vento quase de nada, sentando-se à minha mesa, partilhando comigo o café. Tu me contaste histórias tristes e alegres, fazendo-me chorar, fazendo-me sorrir...”. Considero-te Mãe, fazendo jus de ter nascido ‘homem-poeta-humano’ no meio das páginas de suas nascentes escritas ao qual senti a “danação debilitada de escrever estrelas...”. Pedindo licença, escrevi teus netos mesclados em tua própria essência (que estão anexados junto a esta carta). A graça de teus netos: A minha genealogia, Cotidiano Amanhecido, Fragmentos Poéticos, Meu testamento lírico. Antes que ciúmes a ti mesma, desculpo-me de antemão a ousadia poética de identificar-me com palavras tuas. Agora com dezoito anos e casado, tenho o costume de me levantar “... todos os dias, e depois que abro as janelas, começo a beber a manhã em grandes goles, troco a toalha da mesa, que amanhece manchada com os primeiros raios de sol...”. E como tu já entraste por minhas janelas e bebeste o café do meu sossego, assim espero que um dia eu também consiga entrar pelas tuas janelas como o aroma que exala de sua xícara, com o café requentado de tuas flores.

Nota: na empolgação de minhas palavras, acabei esquecendo de te contar que no inicio deste ano, sem imaginar, estive próximo a tua adorável casa, lendo o clássico Grande Sertão Veredas, o nosso companheiro de viagem. Para alguns este fato não passaria de mera coincidência, ou de que o mundo é pequeno, mas para mim o cordão umbilical que nos une de eternidade em eternidade se renova e que no engenho e espaço do tempo nossas almas de poeta e poetisa consomem a existência...

Abraços de seu filho poético;
Franks Ramoon.

 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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