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OS MISTÉRIOS DE CLARICE E A RODA DE LEITURA ROSEANA MURRAY

Segundo Hélène Sixous, considerada a mais importante teórica francesa da atualidade, Clarice Lispector (1920-1977) é a maior escritora do século XX. Certamente que muita gente haverá de concordar com esse elogio não-gratuito, mesmo em virtude do pouco conhecimento da língua portuguesa tornar-se óbice por parte dos estrangeiros para  conhecerem a riquíssima literatura de língua lusa, “inculta e bela”, nos requintados versos de Olavo Bilac  (1865-1918). Mas, como digo a meus ávidos alunos, quem lê Clarice jamais ficará imune aos enigmas literários.

A sexta Roda de Leitura Roseana Murray constituiu-se a oportunidade ímpar de lermos e relermos Clarice Lispector, justamente na casa de uma escritora que a conheceu, tendo  freqüentado, por um ano e meio, seu  apartamento do Leme, no Rio de Janeiro. Com efeito, levada por Olga Borelli, secretária de Clarice, a menina Roseana foi, inclusive, a primeira pessoa a ler A hora da estrela (1977), cuja autora lhe disse: “você escreve, mostre-me o que você escreve”; e a menina, assustada, certamente, respondeu: “Não escrevo”, ao que Clarice afirmou, peremptoriamente: “Então, você vai escrever”, coisa que, então,  Roseana não entendia,   e que, hoje, compreende, perfeitamente,  como  profecia daquela pernambucano-carioca, nascida na Ucrânia,  que tinha ares de bruxa, exibia uma beleza enigmática e uma postura de esfinge; sua obra total desfere a todos  a pergunta esfíngica: “Decifra-me ou te devoro!” Depois de informar-nos que Clarice colocava no colo sua máquina de escrever, passou por  agruras financeiras, Roseana confessou-nos que tinha medo do personagem Clarice Lispector! Cumpre notar que Clarice, no imenso arco de sua produção literária,  escreveu, também, o que se denomina literatura infanto-juvenil, como os livros O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1968) , A Vida Íntima de Laura (1974) , Quase de Verdade (1978); por sua vez, Roseana Murray ocupa, na literatura brasileira, esse mesmo nicho, embora eu sempre tenha insistido que sua obra ultrapassa, com garbo, classificações canônicas.

Esta manhã amena de uma indecisa primavera, dia 25 de outubro de 2008, estava eu a caminho da casa da Roda da Leitura, quando meu celular tocou: era Roseana que, maternalmente preocupada comigo, por ter-me submetido, por esses dias que passam, a uma simples cirurgia de dentes, me perguntava se eu compareceria. Minha resposta afirmativíssima confirmou meu investimento afetivo e intelectual nessa promoção cada vez mais importante para a vida cultural de nossa Saquarema. Quando cheguei à mansão marítima, locus, habitat, cenário da Poesia, fui recebido por  Samuel, porteiro da Poeta, que me abriu, como sempre, os portões e seu sorriso nordestino. Logo fui apresentado à Profa. Rosana Andréia Soares, que veio de Cabo Frio e desenvolve, na UFRJ, uma pesquisa, em nível de pós-graduação lato sensu, sobre a arte de Roseana Murray. Antes do início da efeméride mensal, pudemos trocar idéias sobre nosso ideal de Poesia e de como a busca da felicidade passa, necessariamente, pelas veredas - sertanejas, urbanas, marítimas - da Arte.

Pude notar, prazerosamente, a assiduidade de certos participantes, como a Profa. Maria Clara Maia,  os gêmeos Eduardo e Thiago (nossos Cosme e Damião, ao vivo), Luna e Babel -  as gatas da casa -,  o Prof. Dr. Renato Motta, dessa feita acompanhado de seu promogênito, o uffiano  Bento, a Profa. Patrícia Pedrosa Trippodo – “mia bambina”-, sem falar, é claro, no Juan Arias, anfitrião perfeito, que pouco fala com a boca, mas muito expressa  num sutil sorriso e com os olhos mouros, perdidamente enamorados de Roseana.

A uma platéia grudada nos olhos e embevecida pelo ritmo marcado  de sua voz,  nossa anfitriã abriu um jornal, onde leu sobre Nise da Silveira (1906-1999), psiquiatra  brasileira, aluna de Carl Jung (1875-1961), célebre por sua revolução no campo do tratamento, também  através da arte, de pacientes internados no Centro  Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio. Aliás, Roseana conheceu essa personagem da cultura nacional e internacional, tendo lançado livros naquele Centro Psiquiátrico (note-se que não se diz “hospital”, mas “centro”), onde uma das internas tomou um dos livros expostos  - Classificados poéticos (1984) – e disse-lhe à queima-roupa: “Fale verdade, você é maluca também, porque escreve estas coisas tão bonitas!”. Da Dra. Nise da Silveira ouvimos, na leitura de Roseana Murray, este enunciado lapidar: “Prefiro ser uma loba faminta a ser um cão gordo e encoleirado”. Antes de saciarmos nossa fome do texto clariciano, pudemos ouvir a Profa. Maria Clara  recitar um de seus mais recentes poemas, “ A louca”, um poema-crônica, que me fez lembrar, pela beleza da forma e pelo esmerado  torneio sígnico,  “Ismália”, poema do simbolista-decadentista mineiro Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), que não resisto em transcrever, até porque alguns da Roda não sabiam deste poema perfeito:


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


O poema da Profa. Maria Clara fora composto em função do conto clariciano, escolhido por Roseana, e  inicia-se com um instigante verso – “Deu a louca de comer flores” -, onde o sintagma “deu a louca”, tanto pode significar um surto qualquer que alguém sofre (por exemplo, “Deu a louca no mundo” é o título de um filme) ou, ainda, uma pessoa louca que começou a comer flores, e termina, esquizofrenicamente, com esta estrofe anti-clímax, ressoando a escatologia de Augusto dos Anjos (1884-1914),  poeta simbolista, decadentista, pré-modernista, que ainda soa revolucionário na forma e no conteúdo: “Com alguns acres e podres resíduos da flor entre os dentes,/ a boca aberta, a língua solta, divertida, cuspida, escarrada,/ todas as outras partes do corpo a louca abandonava,/ sacudindo e soltando a sua viva gargalhada”.

Clarice Lispector pulsava intensamente no desejo de todos, que ouvimos um irrecusável  convite – “Vamos reencontrar a Clarice?” -, congregados em torno de Roseana Murray, que, primeiramente, apresentou um texto “Declaração de amor”, onde a escritora, que se inaugurou com Perto do coração selvagem (1944), enuncia, por exemplo: “Às vezes, ela (a língua portuguesa) reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo em minhas mãos”. Eis, portanto, mais uma profecia da Bruxa do Leme, porque ela terá chegado ao ápice do tratamento da linguagem na linguagem, isto é, da literatura. A reiteração, quase obsessiva, da expressão “às vezes”, na “Declaração de amor”, levaria a uma leitura sobre as intermitências da linguagem, que,  deslocando-se o tempo todo, cria um equilíbrio instável, engendrador de inquietações. Quando o texto declara: “O que recebi de herança não me chega”, lembrei-me, imediatamente, de outro discurso  metalingüístico, o  poema  “Língua portuguesa”, de Olavo Bilac (1865-1918), que não custa inscrever aqui como leitmotif para novas declarações de amor:


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Extraído do livro Laços de família (1960), tivemos, diante dos olhos e no coração, o conto “Mistério em São Cristóvão”, que nos  envolveu a todos nos labirintos textuais de Clarice Lispector,  resistíveis a qualquer  possibilidade de um fio de Ariadne, a não ser a própria tessitura dos signos. Embora não tenha escrito poemas, toda a obra clariciana é um poema; cada frase sua nos provoca um susto, de tanta beleza; é um mar revolto, revoltado, com tempestades e raios, obrigando-nos a parar para poder respirar. Em seus contos, por exemplo, basta um nada para tudo acontecer, pois a realidade é uma dimensão com muitas dimensões, que o texto prismatiza. “Mistério em São Cristóvão” é um discurso cinematográfico, apresentando a seus leitores-espectadores cenas fantásticas e inolvidáveis. Os signos verbais metamorfoseiam-se em signos icônicos e tudo gira na mandala da mente.  Houve, por parte dos alunos, sobretudo, uma reconstituição do conto, narrada com suas próprias palavras adolescentes. Ocorreram, ainda, interpretações dos vários signos, circulando nas linhas enviesadas do conto, cujo narrador urde um jogo de máscaras, sem que, jamais, se possa visualizar o verdadeiro rosto, ou alma, dos personagens. O jardim do conto, mais do que espaço da narrativa, verdadeiro personagem, talvez protagonista, refletia o jardim úbere da casa que nos acolhia, numa primavera duvidosa. Também nós estivámos ali envergando nossas máscaras cotidianas, umas mais perfeitas, outras como rascunho, mas todas véus de almas e mentes em busca de algo, às vezes inominável, às vezes indeterminado, mas, sempre, um horizonte de expectativa.  Definitivamente, éramos uma família, cujos laços são tecidos, mensalmente,  por uma fiandeira da Poesia, tecelã da Literatura, urdidora de enigmas.

Em jogral, lemos, em voz alta, o  poema “Emergência”, de Mário Quintana (1906-1994), o São Francisco gaúcho da Poesia: “Quem faz um poema abre uma janela./ Respira, tu que estás numa cela / abafada,/ esse ar que entra por ela./ Por isso é que os poemas têm ritmo/ - para que possas profundamente respirar./ Quem faz um poema salva um afogado”. Ah, meu Deus, os quintanares são um vergel edênico!

Abriu-se, então,  o espaço para a leitura de poemas próprios, quando a Profa. Patrícia Pedrosa Trippodo  declamou um belíssimo texto, uma espécie de manifesto poético, que homenageia, generosamente, certas pessoas que lhe habitam o coração alado de poeta; o poema finda, com chave-de-ouro: “Esperando o momento único pra ser devorado.../ consumido./ Qual a chave do eterno conhecimento?”. Esse grand-finale remete, apoteoticamente, ao sublime poema de Drummond ( 1902-1987), “Procura da poesia”, onde o poeta mineiro desfecha a pergunta fatal: “Trouxeste a chave?”, sinalizando o mistério insondável das palavras: “Penetra surdamente no reino das palavras./  Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ 
Estão paralisados, mas não há desespero,/ 
há calma e frescura na superfície intata./ 
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário./”. Também Jonas Vítor, vitorioso no mais recente concurso de Poesia das Escolas Públicas de Saquarema, recitou seu poema premiado que, ali, junto ao mar, teve ressonâncias ainda mais significativas. Esse menino emblema, gloriosamente, uma raça de jovens, pautados pelo horizonte da arte.

Como arremate da Sexta Roda de Leitura, fomos convocados a nos congraçar,  participando de uma mesa farta, onde esplendiam, ao lado de um borbulhante chocolate,  bolinhos de chuva, dourados como raios de sol, gostosos como a infância (para alguns de nós já bem remota, mas, para a maioria da platéia, uma infância ainda recente), artisticamente elaborados por Wanda, a cozinheira da Poeta. A sétima Roda - fomos amorosamente informados -  será dia 29 de  novembro e fechará, com poesia plena, o ano em curso, que já se consagra como o momento reinaugural das Rodas de Leitura Roseana Murray, antes dirigidas a apenas professores da rede municipal de Saquarema.


Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
Foto do cabeçalho: Bruno Veiga (Divulgação Ed. Objetiva)
Criação: Gustavo Girard
Administrado por Lammota Comunicação