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A RODA DE LEITURA ROSEANA MURRAY: UMA QUINTA SINFONIA

Se é especial cada “Roda de Leitura Roseana Murray”, sendo avaliada cada uma pelos participantes como a melhor, a quinta edição, ocorrida em 27 de setembro de 2008, teve para mim uma significação toda especial, na medida em que representou o reencontro com o casal Roseana e Juan, que passou, recentemente, por momentos cruciais, superados com glória, graças aos  deuses todos e seus anjos. Aliás, quando cheguei para a efeméride, a casa já estava locupletada de alunos e professores das Escolas Municipais de Saquarema; disse, então, à amada anfitriã que gostaria de rever o Juan. Ao aparecer com um sorriso amplo, Juan bradou-me : “Estamos vivos”; reafirmei: “Vivíssimos”.

Como em todas as Rodas anteriores, a quinta Roda iniciou-a a escritora Roseana Murray com a leitura de um artigo de jornal, intitulado “A ostra e o livro”, onde Ana Luísa Escorel considera : “De fato, o livro talvez seja dos mais extraordinários objetos jamais concebidos, tanto no que se refere ao aspecto físico quanto no potencial transformador”; “Como a ostra, o livro esconde o tesouro dentro de si”. Lembrei-me de Marcel Proust (1871-1922), o mais famoso  escritor francês, que camuflava flores dentro dos livros.  À leitura do artigo, efetuada por alunos, Roseana acrescentava comentários, ratificando a importância essencial do livro e a necessidade de se ler em voz alta, inclusive frente ao espelho; pensei nos bailarinos, que dançam mirando-se em translúcidos  espelhos, quais Narcisos enamorados da beleza da dança.

Após apresentar a cotidianidade e a atualidade do  jornal, Roseana ofereceu o conto que serviria de corpo de nossa leitura sabatina: “Vanka”, retirado do livro Histórias imortais, do escritor russo Anton Pavlovitch  Tschecov (1860-1904), que ela situou  na história da literatura russa, em que excele como artista que retrata aspectos da Rússia de sua época. Ao argumento que considera toda tradução uma traição,  nossa escritora responderia que a tradução é um meio eficaz para se divulgar a literatura, escrita em língua desconhecida pelo leitor; no entanto, pondero eu que toda tradução exige um conhecimento absoluto da língua de origem bem como da língua da versão; se a tradução da prosa é por demais complexa, o caso de tradução da poesia é, a meu ver e prática, impossível, dado que o poema funda-se no puro significante, na forma em si, na aparência da palavra que não encontra igual em nenhum idioma. A poesia não se traduz: recria-se, reinventa-se, relê-se. Sendo o protagonista do conto russo uma criança, a data da 5ª. Roda de Leitura coincidia com a festa de Cosme e Damião, duas crianças santas, celebradas pela Igreja Católica, pela Umbanda e pelo Candomblé; nesse dia festivo, as crianças brasileiras ganham mimos., doces e balas. Se dito conto provém de uma cultura muito longínqua da cultura brasileira, se seu tempo é o da tradição mais clássica, seu  texto estrutura sentimentos e pensamentos humanos de todos os tempos e culturas, constituindo-se, ao fim e ao cabo, num exemplo de obra imortal. Propositalmente, o conto elide a divisão do tempo em passado, presente e futuro, na medida em que presentifica a ação: o instante existe, como poetizou, aforisticamente,  Cecília Meireles (1901-1964).

Terminada a leitura, quase dramatizada por Roseana Murray, do conto russo, Carlos Renato Mota, doutor em economia e professor na UFRJ,   desfechou, surpreso, esta pergunta: “A história acabou?”, ponto inaugural para a discussão travada por alunos e professores. Se o conto, conforme observou uma aluninha, termina por reticências, pensei, logo,  em Clarice Lispector, brasileiríssima escritora nascida na Ucrânia, que inicia seu texto com essa mesma pontuação de não-interrupção, de continuidade, de dinâmica do texto único que são todos os textos da biblioteca do Universo. Enquanto comentávamos os movimentos do conto, Babel, uma das gatas da mansão ( a outra, igualmente belíssima, chama-se Luna), surgiu entre nós, fazendo com que Roseana comentasse que “Babel gosta da história de Vanka”. Como todo texto, o conto de Tschecov é também uma obra aberta, aberta a inúmeras leituras, disponível a um sem-número de significações, horizontes que apontam o infindo do texto. A porta do conto continua aberta e o conto espalha-se  no sonho...

Pois que o conto tem uma carta, configurando um movimento em espelho, em que um gênero textual comporta um outro tipo de texto, Roseana falou da importância fulcral das cartas, mesmo em tempos vertiginosos de Internet. Mas, lembrou Roseana o que ouviu da boca do premiado escritor português José Saramago, “um e-mail não será nunca manchado por uma lágrima”. Pensei em minha saudosíssima Mãe, com quem mantive uma correspondência epistolar por largos anos, inclusive pelos 10 anos, quando estudei na Europa; essas cartas, tantos as dela como as minhas, guardo-as num baú de couro, que comprei no Marrocos e que ainda não tive a coragem de abrir. Nossa anfitriã solicitou que alguns alunos representassem cenas do conto com relação à escritura da carta e à sua entrega e possível leitura pelo avô-destinatário; essas cenas foram hilárias e terão possibilitado uma melhor apreensão da narrativa por parte de todos.

Em seguida, fomos presenteados com o  poema “Tinteiro”, de Roseana Murray, de seu livro Fábrica de sonhos, de 2008:


Fabrico um tinteiro com tinta
mágica e com cheiros variados
de jasmim, terra molhada, alecrim,
para escrever cartas de amor
e amizade.
Cartas de verdade, corações
desenhados nas margens
e segredos nas entrelinhas.
(Às vezes uma lágrima de saudade se esconde no fundo do pé-da-página).


Com esse leitmotiv, fomos instados a escrever uma carta. Roseana pediu que lesse sua carta quem assim o desejasse. Nosso jovem poeta Antônio Francisco Alves Neto, já assíduo freqüentador da “Roda de Leitura Roseana Murray”, foi o primeiro a se pronunciar, homenageando Juan Arias, nosso magnífico anfitrião. Levei muito a sério o dever de casa e me pus a envergar um lápis e escrever à mão, enfrentando uma dificuldade antiga que tenho de usar lápis e escrever sem usar alguma máquina (máquina de escrever, antigamente, e computador, nos tempos que correm).  O destinatário de minhas “mal traçadas linhas” foi Rafael Santana Gomes, jovem mestrando em Literatura Portuguesa, na UFRJ, e que aniversariava justamente naquele dia glorioso. Recitei minha entusiasta e amorosa carta, que foi seguida de um hino, cantado por todos em homenagem ao menino que celebra seu aniversário no dia abençoado de São Cosme e Damião. O Prof. Carlos  Renato  leu sua carta, endereçada à  filha Clarice, adolescendo belamente. Por seu turno, Maria Clara, figura eminente da rede escolar saquaremense, recitou sua carta, dirigida a professores e alunos, um verdadeiro poema em prosa, com tons cabralinos.

Após a leitura das cartas, alguns “fiéis” da Roda aos sábados leram poemas de sua verve, como a jovem professora Patrícia Pedrosa Trippodo, que trouxe um buquê de “Flores especiais” e que antes lera uma emocionante carta à sua Nonnina, que voltou para a Itália, deixando, em Saquarema, um mar de saudades.

Uma presença exuberante marcou a “5ª. Roda de Leitura Roseana Murray”: Dulce Tupy, nossa jornalista-mor, autora do clássico livro Carnavais de guerra, e mentora absoluta da cultura em nossa Saquarema comum. Falou dos projetos de sua Tupy Editora, entre os quais figura a publicação, sob a chancela de Antônio Francisco Alves Neto, do meu livro Águas de Saquarema, uma ode à nossa cidade,  e teceu vibrantes encômios à iniciativa, já tradicional, dessas Rodas, que fazem rodopiar nossas cabeças e nossos corações, infantis, jovens e menos jovens.

Quais crianças em dia de Cosme e Damião, passamos, ávidos,  à mesa de bolos, chocolates quentes e café, quando as pessoas se confraternizavam gostosamente. Sorvendo um café delicioso, eu observava a Vanda (Vanka), ainda mais bela com as cores de seu vestido primaveril  e responsável, também, pelo êxito dessas tertúlias; Samuel, seu marido, guardião da mansão Murray-Arias, é quem sempre me recebe, exibindo um sorriso de boas-vindas. Tive a ocasião de declarar à Roseana que ela está ainda mais bela, vencidas todas as agruras recentes. A primavera, recém-inaugurada, traz augúrios entusiastas;

Não poderia encerrar essa simples crônica de um excelente evento, sem mencionar que a  “Roda de Leitura Roseana Murray” está ultrapassando as margens marítimas de nossa Saquarema; em edição anterior, convidei Berta Antunes, professora em Araruama; na quinta Roda – quinta sinfonia, quintessência  -, pude convidar Diego Gonzáles, argentino que mora em Niterói e é doutor em Física. Definitivamente, a literatura rompe fronteiras de tempo, idade, cultura e Roseana Murray é amorável catalisadora. Como me escreveu Walmir Ayala (1933-1991), poeta gaúcho-carioca-saquaremense, enterrado em nosso Cimetière Marin: “somos irmãos na Poesia”.


Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
Foto do cabeçalho: Bruno Veiga (Divulgação Ed. Objetiva)
Criação: Gustavo Girard
Administrado por Lammota Comunicação