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A RODA DE LEITURA ROSEANA MURRAY, NÚMERO 4

Venho notando que vou pautando meus dias pela próxima “Roda  de Leitura”, que Roseana marca a partir não sei de quê, mas que, certamente, tem a ver com o sábado, dia sagrado para os judeus, leitores inveterados. Não sou só eu a me preparar ritualmente, porque Kátia Devino, minha nora, por exemplo, foi , à  véspera deste quarto reencontro, a um salão de beleza ; como se ela precisasse de realçar sua beleza de mãe de três lindos pimpolhos. Dia 23 do corrente mês, acorremos todos à mansão marítima de Roseana Murray e Juan Arias a fim de darmos continuidade ao maravilhoso Projeto da Poeta de Saquarema. Era um sábado frio e um pouco chuvoso, o que deslocou o cenário das varandas marítimas para o salão de estar. Notei que houve, dessa feita, um número muito maior de participantes, entre professores, alunos e convidados. Levei uma convidada, Berta Antunes, professora da rede municipal de Araruama, artista plástica, joalheira e mestranda em Ciência da Arte, na UFF, onde sou seu orientador de dissertação sobre Caio Mourão, real fundador da joalheria moderna brasileira. Os anfitriões nos receberam, como é de seu culto feitio,  com um largo sorriso e nos postamos em círculo: os adultos em poltrona, sofás e cadeiras; os alunos sentaram-se no chão sobre tapetes, alguns tapetes persas, que facilitam a viagem e os sonhos. Como de praxe, Roseana abriu os trabalhos com considerações sobre a leitura na escola, sobre o hábito de ler, desde cedo, sobre a importância essencial da literatura, na vida de cada ser humano. Tomou um jornal e leu uma reportagem que dava conta de um recifense que fundou, na favela onde mora, uma biblioteca, iniciativa essa que vem melhorando a qualidade de vida dos moradores daquela carente comunidade. Com sua biblioteca-palafita, aquele “traficante de livros” alça-se como exemplo para cada um de nós, no sentido de espalharmos livros e criarmos leitores em torno de nós mesmos. Se, como afirmou Mallarmé, poeta simbolista-decadentista francês, o mundo existe para terminar num livro, podemos todos nós empreender ações, por mínimas que sejam, para transformar o mundo num grande texto, de que somos leitores e autores. Comentando a empresa literária do cidadão favelado, Roseana lembrou Oscar Wilde, escritor irlandês marginal, que fora condenado à prisão com  dois anos de trabalhos forçados, que disse: “Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns olham as estrelas”. “Tu pisavas nos astros distraída”, canta a bela canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa que fala da favela e que Caetano Veloso parafraseou divina e maravilhosamente: “Tu pisavas nos livros distraída”. Toda biblioteca, ponderava a anfitriã, “mais do que um espaço físico, é um caldeirão de idéias”; e ela repetia, batendo na tecla de todo encontro sabatino, que “o imprescindível é criar e a arte, como um todo – música, capoeira, teatro, dança – e a literatura, em particular, fazem com que o aprendizado, na escola, melhore muito”. Essas palavras sábias e saborosas ressoavam com o som dos sinos budistas da casa e a música do vento e das ondas, que nos circundava. Antes de se retomar a leitura do conto que estava em pauta, nossa Poeta-mor convidou alguns participantes a lerem alguma poesia, por ela selecionada. De início, leu-se o poema em prosa “ A arte e o tempo”, extraído do Livro dos abrços, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. A mim coube o poema “Caixinha de música”, de  autoria de Roseana Murray e de Guga Murray, seu filho musicista, que dialoga, no livro homônimo, com a poesia da mãe: “Sete notas são tão pouco,mas são mais que o infinito, que todas as galáxias juntas, com seus anjos e cometas. Sete notas musicais são mais que todos os mares com seus cristais e sereias. Sete notas são mais que todos os grãos de areia, e fazem  estradas e caminhos, e nos levam pelos ares, pelo chão, até o moinho do tempo”. Este poema está escrito sobre uma espiral em aberto ou a espiral aberta se desenha sobre os versos e estrofes. No lado esquerdo da página (como o coração da gente), há esta inscrição “Nota: Esta pauta em espiral sem nada escrito é a peça que cada leitor vai compor, escrevendo aí sua própria seqüência de sons”.  Propus uma leitura coletiva, um jogral, um coro. Berta Antunes cochichou-me  o comentário exato: “Era uma ladainha marítima”. Vindo de São Pedro d’Aldeia, José Arias, artista, professor de dança, médico alternativo, tradutor e poeta, declamou, para deleite de todos nós,  um lindo poema em espanhol, que ele compôs.  Maria Clara (jamais soube o sobrenome dessa professora tão querida: mas com um prenome tão poético, para que nome de família, se sua portadora é da família dos grandes poetas e das rosas raras?) apresentou um belo poema, de sua lavra metalingüístico-experimental, à la João Cabral de Melo Neto: “Iniciação a Machado”: “ Neste país nunca se leia de primeira Machado. Sempre se releia Machado, depois de ouvi-lo, citado, para, então, recitá-lo pela tradição da língua, beijo já experimentado. Prazer fino que se ensina, lento e delicado. O melhor soneto, Carolina, um pretexto transformado, pelas filigranas da ironia nos melhores contos, de mulheres dúbias, ressacadas, de homens incertos: se alienistas, se alienados, pai contra mãe jogados. Num sofá ou avarandado se leia Machado, (guardar lugar) sempre acompanhado pelo fantasma que se lembrou de mostrar o bruxo da tradição corrente. Talvez por susto, corte ou sorte, obrigada! A primeira vez, malograda, leitura de que  não se entendeu nada, mas a que depois se volta, por essa marca, desafio, revolta: que neste país nunca se leia só mas sempre se releia Machado!”  Passamos, então, à audição do conto “Cantiga de esponsais”, lido por Roseana Murray. Em seguida, fizeram-se comentários á arte impecável e pecaminosa (“arte terrível”, asseverou Roseana) de Machado de Assis. É um conto perfeito, uma crônica exata, uma narrativa cinematográfica, um texto clássico, que ultrapassa sua própria temporalidade e nos torna coetâneos do escritor carioca. Mestre Romão, o protagonista, somos nós, com nossas imperfeições, ansiedades, angústias, ambições. O narrador sagaz estende-nos um espelho, onde descortinamos nossa alma, sôfrega de arte. Mas a arte e, no caso, a música, independem do criador: como o sol da canção de Caetano, ela brilha por si. Um ou outro recebe o privilégio de incorporar a arte, de expressá-la, de transmiti-la. Convidados da quarta edição da Roda de Leitura Roseana Murray, nós, saquaremenses, somos privilegiados de poder conviver, em sábados sagrados, num lar que respira arte e se identifica com a Poesia. Maternalmente, Roseana ofereceu-nos um delicioso arroz-doce, que me soube a infância mineira; colocado em taças pela Vanda, cozinheira mineira típica, aquela sobremesa era mais que um emblema: era poema comido. Depois que cada um assinou seu nome no livro de presença da Secretaria da Cultura de Saquarema, iríamos responder a uma questão formulada pela Anfitriã dos sábados de leitura: “Qual é o seu dom?” Não li o que os outros escreveram, mas eu, modesto escriba sabatino,  inscrevi o que me veio primeiro à mente: “Meu dom é o dom de iludir”. Não será a arte a mais luminosa das ilusões?

Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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