- O Atelier de Cerâmica Evelyn Kligerman, Teresópolis, R.J, está recebendo escolas para oficina de barro e leitura. Agende sua visita!
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RODA DE LEITURA, NÚMERO 3
Esta nova obra de Roseana Murray – “Roda
de leitura” ou “Café literário” ou “Sarau
marítimo” – me fazem lembrar
uma das lições do principezinho
de Saint-Exupéry, quando ele ensina às
gerações todas que o ritual é importantíssimo
para o encontro, para o reencontro. Tenho notado,
a cada sessão, que os participantes – alunos,
professores e convidados – vêem se
esmerando na indumentária, como se fossem
a uma missa, a um teatro, a uma sala de concertos.
Aquela descontração saquaremense,
com sandália havaiana, bermuda, short,
fica mais no nível do espírito
do que na aparência dos que acorrem ao
convite da sublime anfitriã. Kátia
Devino, por exemplo, minha nora, professora da
rede municipal, reaparece espontaneamente deslumbrante.
Também os textos são adrede preparados,
com esmero, pela escritora, que reserva, sempre,
alguma surpresa quanto ao roteiro, ao script,
ao ritmo da efeméride. Outro ponto importante
tem sido a celebração à mesa,
depois de encerrados os trabalhos de leitura
e interpretação. O cuidado de Roseana
lembra-me uma passagem de Confesso que vivi,
de Pablo Neruda, que ela me apresentou, quando
o escritor chileno narra a cena de três
senhoras francesas, anfitriãs de hóspedes
inesperados aos quais preparava, a cada vez,
um menu diferente. Mais um dado que me tem encantado
na iniciativa da Poeta é que ela realiza
aquilo com que sonho há tempos: trazer
os alunos à minha casa, ao invés
de eu ter que ir à universidade; ocorre,
então, uma releitura do postulado de Milton
Nascimento: “O artista tem que ir aonde
o povo está”.
Hoje, 25 de junho de
2008, a terceira “Roda
de leitura” começou, como as anteriores,
com uma preleção, em que nossa
escritora reprisava seu conceito de educação
total, via arte, com todo afeto possível.
Ela conclamava as escolas a um trabalho fundado
na arte e a uma dedicação integral,
sobretudo à literatura, que eu denomino “mãe
das artes” e que ela considera a mais importante
de todas as artes, a mais complexa e a mais completa,
porque congrega todos os sentidos, não
só os sentidos físicos como os
sentidos de exegese. A leitura desperta vocações
de poetas, faz questionar tudo, visto que a realidade é múltipla,
mexe com a cabeça a fim de buscar novas
formas. É preciso criar para não
atrofiar. Os livros são perigosos. A linguagem é cheia
de armadilhas. Com a avalanche da Internet,
o papel do professor mudou completamente de rumo,
sendo, não mais aquele que transmite o
saber, mas a bússola, o que ajuda, o que
orienta, o que forma. “É preciso
botar pimenta nos pensamentos”, concluiu
sua preleção a Poeta que ama cozinhar.
Mudando
um pouco a estrutura das rodas de leitura anteriores,
começou-se com a poesia de
Manoel de Barros: “O menino que carregava água
na peneira”, do livro Exercícos
de ser criança, uma alegoria
da utopia possível ou do “dream
an impossible dream”, que vários
dos participantes leram como o horizonte ilimitado
da arte, dentro do que o poeta pantaneiro designa
como “a poesia é o inutensíio”.
Em seguida, Roseana apresentou o belíssimo
conto “Famigerado”, de Guimarães
Rosa, que foi lido por ela sem interrupção
alguma e que, depois, foi relido, pontuando-se
as palavras esdrúxulas e apresentando-se
leituras daquele texto eminentemente metalingüístico,
que celebra, em prosa e verso, o poder da palavra,
a riqueza do verbo, o transe do “veriverbo”.
Equipados com “o livro que aprende as palavras” ou,
em termos do “dia-de-semana”, o
dicionário, fomos nos deleitando na ciranda
da criação, recriação,
transcriação do romancista-poeta
de Grande sertão: veredas. Manuela
e Jonas, adolescentes artistas, encenaram,
de improviso, as cenas do Jagunço e do
médico, confirmando aquilo que Roseana
já dissera a respeito do texto rosiano,
onde há “um susto em cada frase”.
Voltou-se à poesia,
quando Roseana recitou “Esperança”,
de sua verve; Kátia Devino, Maria
Clara, Antônio Francisco Perez e o Prof.
Robledo ecoaram, belamente, com seus poemas
um jogral sabatino.
Tendo Roseana sorteado, entre
os presentes, vários livros de poesia,
fomos convidados a saborear um suculento cachorro-quente,
que caía, prosaicamente, sobre nossos
espíritos,
imbuídos de poesia. Encerrava-se mais
uma roda de leitura e eu pensei, “de incerta
feita”, no ritual de toda atividade humana,
configurando a vigília da felicidade.
Roseana Murray já dissera que “todo
ser humano tem uma reserva de felicidade”.
Esta crônica, por exemplo, fora pensada
e meditada antes mesmo de a terceira roda de
leitura acontecer. Tenho no meu nome o nome de
dois profetas – Isaias e Moisés
-, o que me faz prever certas coisas. Também
minha indumentária fora premeditada. Quando
cheguei à casa da leitura, Juan Arias
disse-me: “Você parece um monge budista”,
recepção que me encheu de alegria,
confirmada pelos vários haicais, que a
Profa. Maria Clara trouxera para que lêssemos
em voz alta.
Com esta terceira Roda de Leitura,
Roseana Murray está, de fato, mudando
os hábitos
culturais de toda uma cidade. Ela será o
Balzac pós-moderno que vem, pian
piano, revolucionando os costumes,
não só de costureirinhas, como
de educadores, políticos, escritores e
- viva a esperança! - de promissores jovens.