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UBUNTU E O PRÍNCIPE FELIZ

Dia 13 de maio tivemos nosso Café da Manhã literário com a presença de muitos alunos e professores e duas grandes ausências: o professor Latuf, nosso escriba oficial que estava em Manaus e Babel, nossa gata leitora, que desapareceu como num passe de mágica nos deixando inconsoláveis. Babel já é conto, (Babel, Um Conto de Natal, in Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. Quinteto), restaurante: Babel Restaurante em Visconde de Mauá dos Chefs André Murray e Dani keiko e também Babel, Escola de Gastronomia e Arte dos mesmos Chefs em Resende. Mas queríamos mesmo era a nossa gatinha de volta, depois de doze anos conosco é muito grande a falta que faz.

Começamos a Roda de Leitura lendo um capítulo do livro “50 motivos para amar o nosso tempo” de Juan Arias que sairá em julho pela ed. Objetiva. Ubuntu, era o capítulo, maravilhoso conceito africano que nos diz que somos parte de um todo, que sem o outro não existimos e sem fazer algo pelo outro nossa vida se torna inútil e vazia. Discutimos sobre a África que como sempre nos presenteia e agora nos dá essa palavra maravilhosa sem similar em nossa língua. Discutimos sobre o momento em que vivemos, todas as transformações, as possibilidades. Segundo Juan Arias, vivemos o melhor momento da história do planeta. Falamos das ficções do passado que pouco a pouco já são realidade. Falamos de Julio Verne, de como tudo o que sonhou agora é banal, de tele transporte, no futuro poderemos viajar sem sair do lugar?

Quando terminamos de ler Ubuntu todos os convidados já haviam chegado, era lindo ver os tapetes repletos de adolescentes e os pães que fiz muito cedo de manhã já saiam do forno com a ajuda da Vanda e perfumavam toda a varanda.

Começamos a ler o conto O príncipe Feliz do Oscar Wilde. Falamos antes do autor, da sua homossexualidade, de tudo o que sofreu pela intolerância da época e mais uma vez nos lembramos que nosso tempo é privilegiado por derrubar tabus e como nos diz a canção, toda maneira de amar vale a pena. O conto é muito bonito e estavam todos atentos. No final pedi que Manuela começasse a resumir o conto sem olhar o papel, em pé, de frente para todos. E fui trocando alunos e professores, cada um contava um pouquinho. Depois discutimos o conto e comentamos o seu enlace com Ubuntu, como os dois textos se abraçavam maravilhosamente. Todos comentaram a atitude do Príncipe, antes, em vida, fechado em seu Castelo, preocupado apenas com seus prazeres, e depois de morto, com os olhos bem abertos para tudo o que acontecia em sua cidade e falamos da sua compaixão. Maria Clara, professora e diretora da Biblioteca Comunitária que será inaugurada sábado, dia 16 de maio com uma grande festa na Associação de Moradores Amigos do Boqueirão (aproveito para agradecer as editoras Lê, Manati, Scipionne e Moderna que nos doaram livros maravilhosos!) chamou a atenção de todos para os textos dentro do conto: a menininha dos fósforos e o soldadinho de chumbo de Andersen. Manuela nos falou que o que os homens jogaram fora, o coração de chumbo do príncipe e a andorinha morta, os anjos escolheram como o melhor presente para Deus.

Por último lemos todos juntos, em voz alta, o poema Urgentemente do poeta Eugenio de Andrade:

URGENTEMENTE
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar a alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Mais uma vez o poema se enlaçou com o conto. Sempre é urgente o amor. Maria Clara distribuiu um hai-kai de sua autoria sobre o conto e então fomos para a mesa de café da manhã com chocolate quente, bolos variados e pães.

O que constato depois da Roda, sempre, é a felicidade de todos, a alegria de estar juntos discutindo belos textos, discutindo o mundo, a relação maravilhosa que se estabelece entre professores e alunos. A Secretaria de Educação, sempre presente na pessoa da minha amiga Dodora, pessoa maravilhosa, me trouxe o primeiro número do informe da Secretaria sobre tudo o que se faz de interessante nas escolas municipais de Saquarema, são muitas atividades e o informe, lindo, bem diagramado, colorido, faz com que todos saibam de tudo, desde festivais de poesia, a abertura da escola para atividades com a comunidade, bailes, desfiles de moda com toda a obra poética do Paulo Leminsky como tema, etc. São tantas escolas que muitas vezes uma não sabe o que a outra está fazendo e com o informe as idéias circulam.

Agora me cabe a tarefa maravilhosa de separar os textos para a Roda de leitura de junho! E a próxima crônica, com certeza, será escrita pelo Professor Latuf, meu amigo e cúmplice que não estava aqui mas telefonou para desejar boa sorte e recebeu uma salva de palmas que ecoou lá em Manaus.


Roseana Murray



A RODA DE LEITURA IMAGINÁRIA

Desde que a escritora Roseana Murray reinaugurou, em sua casa à beira-mar de Saquarema, dia 26 de abril de 2008, sua Roda de Leitura, tenho sido participante contumaz, assumindo, inclusive, por conta e risco próprios, o papel de cronista do evento, o que me valeu o honroso título de escriba. À 10ª. Roda de Leitura, ocorrida em 13 de maio deste ano, não pude, porém, comparecer, dado que faria palestra, justamente naquela semana, em congresso internacional, realizado na Universidade Estadual de Manaus/UEA.

Como nas edições anteriores, Roseana informou-me sobre o conto que apresentaria, convocando os participantes a uma leitura: “O fantasma de Canterville”, do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Bom aluno que sempre fui, fui correndo buscar, em minha labiríntica biblioteca, o conto que não conhecia do escritor que leio desde 1987, quando comecei a conhecer e a amar intensamente em meu mestrado em Teoria Literária na UFRJ. Adorei o conto, sobretudo pelo embate entre o positivismo, o pragmatismo, o cientificismo e a magia, criada pelo texto literário; no entanto, considerei muito longo o conto a ser explorado em uma breve manhã literária. Em conversas posteriores, nossa escritora anunciou-me que mudara de conto, mas não de autor: leria o conto “O príncipe feliz”. Fiz questão de imprimir o original inglês desse magnífico conto, que li no lugar mais adequado: a Praia da Vila. Comecei, então, a elucubrar sobre as leituras que professores e alunos saquaremenses operariam do texto wildeano. Poucos contos têm tanto a ver com a vida e a felicidade de se viver em Saquarema e seriam todos os presentes tocados, com certeza, profundamente.

Na mágica Manaus, eu imaginava aquela Roda de Leitura, de que não participava literalmente. Sabia que o ritmo seria o mesmo: a anfitriã, com indumentária de maga, em pé ao centro da roda de jovens e adultos, inauguraria o evento com leitura de jornal sobre a importância essencial da leitura. Depois, leria, com voz pausada e dramática, o conto eleito, ouvindo, em seguida, os comentários dos presentes. Alguns declamariam poemas, de sua autoria ou de outrem. Ao final, seriam oferecidos uns quitutes e uns cafés, chocolates e sucos, gostosamente feitos por Wanda, a secretária impecável.Tudo perfeito, como prescreve o ritual mensal das Rodas de Leitura Roseana Murray.

Eu estava em Manaus e sonhava com essa tertúlia saquaremense. Às 8h20, peguei meu celular e disquei para o celular da Roseana, que estava desligado; liguei, então, para o seu telefone convencional, em que fui atendido por Juan, informando-me que sua esposa estava em plena Roda. Desculpei-me por haver-me equivocado quanto ao fuso horário, dado que no Amazonas há uma hora de diferença com relação ao Sudeste (eta Brasil lindamente imenso!). Contudo, Juan, elegantíssimo como sempre, passou o telefone à sua Roseana, a quem eu disse estar meu coração presente naquele círculo de poesia. Ela me ouviu afetuosamente e me fez ouvir um prazeroso barulho de palmas, que eclodiram de Saquarema a Manaus. Tantos calorosos aplausos testemunhavam a beleza de um evento, que congrega pessoas de excelente vontade em torno da Poesia, para a qual não há distâncias nem de espaço nem de tempo.

Chorei de novo as lágrimas de felicidade que vertera na Praia da Vila, quando lia, sozinho face às nossas ondas, o conto “O príncipe feliz”.



Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
Foto do cabeçalho: Bruno Veiga (Divulgação Ed. Objetiva)
Criação: Gustavo Girard
Administrado por Lammota Comunicação