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NO AR
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

Foi amor à primeira leitura. Na esplêndida casa de Roseana Murray, vi, numa parede, na travessia entre a sala de jantar e a cozinha, que dá passagem para um varandão, este poema emoldurado:

Tear

Com fios de pensamento
se tece o mundo,
se costuram pedaços
rasgados
de vida,
nesse tear estranho
que só o homem possui:
tear de sonhos.

Fiquei pasmo com a descoberta e li o poema uma vez, duas vezes, três vezes, desejando decorá-lo. Aí lia, via, entrevia toda uma teoria da linguagem, que, há décadas, venho estudando. Num pequenino poema de oito versos, a concentração da linguagem, vale dizer, do universo inteiro. Nele, no tear rosiano, apenas um adjetivo (“rasgados” é termo do particípio passado”, funcionando, nesse contexto,  adjetivamente; portanto, é verbo), que me fascinou, tamanha a sua força: “estranho”, qualificando o substantivo, que intitula o poema; “estranho” equivale a “estrangeiro”, “fora do lugar”, “esquisito”, “ misterioso”, “esquivo” e a tantas outras conotações (como “sinistro”, na gostosa gíria dos jovens), no repertório infindável de nosso idioma, que rodopiam no imaginário do leitor, entranhado no texto. Com meus botões, perguntava-me se, por acaso, a Poeta saberia dizer em qual das suas dezenas e dezenas de livros publicados figura esse poema emoldurado. Subi para o mezanino da mansão poética e desfechei, à queima-roupa, a pergunta; incontinenti, Roseana pegou, numa das estantes de sua vastíssima biblioteca, um livro Residência no ar, abrindo-o na página em que “Tear” encontra o seu habitat, a sua residência. Meus olhos ávidos queriam aquele livro e eu não ousava pedir verbalmente à Autora. Generosíssima como sempre, Roseana Murray ofereceu-mo, inscrevendo esta dedicatória lapidar:

Para o Latuf,
A poesia
Residência no ar
É a tua casa,
Roseana
Saquarema, 8/02/2008.

Chamou-me irmão, hóspede, poeta, e eu me senti também, como disse Platão – ex-poeta, que queimou todos os seus poemas e expulsou, de sua república ideal, todos os artistas, incluindo, é claro, os poetas -, um ser alado. Minha anfitriã perfeita acolheu-me no seu tear, na sua oficina, na sua morada, com direito a banquetes e à Poesia infinita.

Voltei, como a menina do conto “Felicidade clantestina”, de Clarice Lispector, irmã-gêmea de Roseana Murray, com o livrinho apertado ao peito, para a minha casa, minha biblioteca, meu monastério particular, meu santuário, onde eu iria passar mais uma noite insone, flutuando nos versos dessa Poeta.

Post-scriptum. No mesmo dia, em que descobri o poema “Tear” – oito de fevereiro de 2008 -,  e ganhei o livro Residência no ar (São Paulo: Paulus, 2007), Roseana Murray também me deu um ventilador belíssimo, com hélices onduladas de cor laranja. Jamais ganhara, em toda a minha provecta vida, um ventilador. Minha casa de virginiano  há de ficar ainda mais aérea, etérea, alada... A poesia de Roseana Murray nos empresta asas, a nós, meros mortais, no entanto possuidores de um “tear estranho” – a linguagem -, que nos faz sonhar.
 
Vinhetas: Roger Mello, Jardins, Ed. MANATI
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